PAZ e BEM! Bem-vindo à Página dos Frades Missionários Capuchinhos

Página Principal


São Francisco Assis


Espírito de Assis


Porciúncula


Ordem Capuchinhos


Missão em Timor


Onde Vivemos


Espaço Jovem


Música


Apontadores


 
Actualidade

de dois povos fez um só e destruiu o muro de separação

 

 

de dois povos fez um só e destruiu o

muro de separação (Cf. Ef 2,14)

 

(Nos 10 anos do Nobel da Paz de Dom Ximenes Belo e Dr. Ramos Horta)

 

 

A Palestina, no tempo de Jesus, era um pequeno território sob domínio do império romano (desde 63 a.C.) e onde fervilhavam muitas religiões e cultos pagãos. Judeus (monoteístas) e pagãos (politeístas) guerreavam-se mas Cristo veio unir estes dois povos, formando um só, o Povo de Deus. Assim no-lo diz São Paulo, na carta aos Efésios: Cristo “anulou a lei, que contém os mandamentos em forma de prescrições, para, a partir do judeu e do pagão, criar em si próprio um só homem novo, fazendo a paz, e para os reconciliar com Deus, num só Corpo, por meio da cruz, matando assim a inimizade” (Ef 2,15-16).

 

Na verdade, Cristo não veio para revogar a lei, mas para a levar à perfeição (Cf. Mt 5,17), isto é, para, antes de mais, lhe devolver a simplicidade original porque muitos grupos religiosos, sobretudo os fariseus e os doutores da Lei, teimavam em carregar os homens com prescrições legais, fardos demasiado pesados que eles próprios não carregavam. Por isso lhes disse Jesus: “ai de vós, doutores da Lei e fariseus hipócritas, porque pagais o dízimo da hortelã, do funcho e do cominho e desprezais o mais importante da Lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade!” (Mt 23,23).

 

Desenho no muro do estádio de futebol de Díli

 

Mas não só os fariseus e os doutores da Lei mas também outros grupos religiosos de então como os saduceus, os samaritanos e os zelotas impunham aos seus fiéis um conjunto de preceitos que, naturalmente, teriam como objectivo ajudá-los a reconhecer a sua natureza frágil e o seu pecado perante Deus e a purificar-se mas que, pelo contrário, eram, muitas vezes, meramente rituais e cultuais, prestando pouco importância ao espírito com que eram vividos; por isso diz o Senhor: “este povo aproxima-se de mim só com palavras e honra-me só com os lábios, pois o seu coração está longe de mim e o culto que me presta é apenas preceito humano e rotineiro” (Is 29,13).

 

E também por isso é que João Baptista, “cheio do Espírito Santo já desde o ventre da sua mãe” (Lc 1, 15b) os convidava a produzir frutos de sincero arrependimento (Cf. Lc 3,8), como diz o salmo: “sacrifício agradável a Deus é o espírito arrependido” (Sl 51,19a). Também Jesus, logo no início da sua vida pública, em Cafarnaúm, começou a pregar a conversão (Cf. Mt 4,17) para logo de seguida, como nota o evangelista Mateus, subir a um monte e proclamar a nova Lei do Reino onde os pacificadores serão chamados filhos de Deus (Cf. Mt 5,9).

 

Assim, a conversão surge como um primeiro passo necessário para a construção da paz porque favorece relações mais profundas, transparentes e verdadeiras, ao contrário das relações entre muitos dos povos que habitavam aquela estreita faixa de terra entre o Jordão e o Mediterrâneo, onde imperava a atenção ao culto e à lei, e que se afastavam uns dos outros chamando-se mutuamente de impuros (a este respeito pode ler-se todo o capítulo 23 de São Mateus). Criavam-se, assim, divisões e muros praticamente intransponíveis: os judeus deviam abster-se de todo o contacto com os samaritanos (Cf. Jo 4,9), aqueles que não jejuavam eram criticados (Cf. Lc 5,33-35), bem como aqueles que não lavavam as mãos antes de comer (Cf. Mc 7,1-4), não era permitido colher espigas (Cf. Mc 2,23-28) ou curar (Cf. Mc 3,1-6) ao sábado, etc. No tempo de Jesus, só as ‘sentenças’ dos rabinos contavam-se por 613 regras, sendo que a grande maioria se referiam ao puro e ao impuro.

 

Ao longo de toda a sua vida pública, Jesus, aparecerá como um destruidor desses muros, não ao jeito recente de alguns países que, em nome da luta anti-terrorista, provocam e levam a cabo terríveis guerras com todas as consequências que daí advêm, mas com uma pedagogia única que Ele se propõe ensinar: “aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt 11,29-30). Jesus foi ungido para anunciar a Boa-Nova aos pobres, dar a vista aos cegos e proclamar a liberdade aos oprimidos (Cf. Lc 4,18), por isso, ao contrário dos fariseus e dos doutores da Lei, Ele acolhe e come com cobradores de impostos e pecadores (Cf. Lc 15,1-2), permite que as prostitutas se aproximem dele (Cf. Lc 7,37-38), perdoa aos pecadores arrependidos (Cf. Lc 7,36-50), cura os estrangeiros (Cf. Lc 17,11-19), dá uma grande importância à mulher num tempo em que ela era religiosa e socialmente discriminada (Cf. Lc 8,1-3; 10,38-42), convida todos a amarem os inimigos (Cf. Mt 5,43-48), tem um olhar bondoso e misericordioso para com todos, mesmo com aqueles que o negam (Cf. Lc 22,56-62) e oferece a vida eterna a uma samaritana (Cf. Jo 4,14). Vejamos alguns exemplos:

 

jesus escolhe mulheres como suas discípulas: “Em seguida, Jesus ia de cidade em cidade, de aldeia em aldeia, proclamando e anunciando a Boa-Nova do Reino de Deus. Acompanhavam-no os Doze e algumas mulheres, que tinham sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demónios; Joana, mulher de Cuza, administrador de Herodes; Susana e muitas outras, que os serviam com os seus bens” (Lc 8,1-3).

 

entra em casa de um chefe de cobradores de impostos e consegue a sua conversão: Jesus disse a Zaqueu: “‘Zaqueu, desce depressa, pois hoje tenho de ficar em tua casa.’ Ele desceu imediatamente e acolheu Jesus, cheio de alegria. Ao verem aquilo, murmuravam todos entre si, dizendo que tinha ido hospedar-se em casa de um pecador. Zaqueu, de pé, disse ao Senhor: ‘Senhor, vou dar metade dos meus bens aos pobres e, se defraudei alguém em qualquer coisa, vou restituir-lhe quatro vezes mais.’ Jesus disse-lhe: ‘Hoje veio a salvação a esta casa, por este ser também filho de Abraão; pois, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido’” (Lc 19,5b-10).

 

permite que uma prostituta lhe lave e beije os pés: “(…) certa mulher, conhecida naquela cidade como pecadora, ao saber que Ele estava à mesa em casa do fariseu, trouxe um frasco de alabastro com perfume. Colocando-se por detrás dele e chorando, começou a banhar-lhe os pés com lágrimas; enxugava-os com os cabelos e beijava-os, ungindo-os com perfume. (…) E Jesus disse à mulher: ‘A tua fé te salvou. Vai em paz’” (Lc 7,37-38.50).

 

perdoa a uma mulher adúltera em vez de a apedrejar como era normal naquela época: “(…) os doutores da Lei e os fariseus trouxeram-lhe certa mulher apanhada em adultério, colocaram-na no meio e disseram-lhe: ‘Mestre, esta mulher foi apanhada a pecar em flagrante adultério. Moisés, na Lei, mandou-nos matar à pedrada tais mulheres. E Tu que dizes?’ Faziam-lhe esta pergunta para o fazerem cair numa armadilha e terem de que o acusar. Mas Jesus, inclinando-se para o chão, pôs-se a escrever com o dedo na terra. Como insistissem em interrogá-lo, ergueu-se e disse-lhes: ‘Quem de vós estiver sem pecado atire-lhe a primeira pedra!’ E, inclinando-se novamente para o chão, continuou a escrever na terra. Ao ouvirem isto, foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos, e ficou só Jesus e a mulher que estava no meio deles. Então, Jesus ergueu-se e perguntou-lhe: ‘Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?’ Ela respondeu: ‘Ninguém, Senhor.’ Disse-lhe Jesus: ‘Também Eu não te condeno. Vai e de agora em diante não tornes a pecar’” (Jo 8, 3-11).

 

A conversão e a adequação do nosso agir ao de Jesus faz de nós, necessariamente, construtores de paz e destruidores de muros. E hoje continuam a ser muitos os muros a dividir os homens e os povos: o muro que separa os países ricos dos países pobres, o muro que esconde a violência doméstica e o trabalho infantil, o muro que impede o acesso de todos à educação, à saúde e a um emprego com dignidade, o muro que, nalguns países, proíbe a liberdade religiosa e o acesso das mulheres a cargos políticos, o muro que impede o acesso dos portadores de deficiência a uma vida com dignidade, etc.

 

Temos ainda os muros de betão armado que rapidamente se constroem mas dificilmente se derrubam: ainda estará na memória de todos o muro que, depois da II Guerra Mundial, durante muitos anos, separou a República Democrática Alemã da República Federal Alemã, bem como muitos milhares de famílias. Também os frequentes muros erguidos na faixa de Gaza parecem perpetuar um conflito e condenar os sonhos de paz de milhares de pessoas. E, ainda não refeitos de tantos muros, uma lei recentemente aprovada nos Estados Unidos da América determinou a construção de um muro de 1.226 quilómetros na fronteira com o México. Mas ele será, muito provavelmente, insuficiente para resolver o problema da imigração ilegal e levará muitos mexicanos, que não desistirão de procurar uma nova oportunidade de vida, a arriscar-se ainda mais para entrar em território americano, por exemplo, através do deserto do Arizona. Pode parecer estranho como é que uma sociedade que nasceu com a imigração não é capaz de criar políticas migratórias eficazes, mas, na verdade, isto acontece porque no mundo há falta de homens com a pedagogia e o amor de Jesus.

 

Dois contentores servem de muro de divisão duma estrada em Díli

 

Duas pessoas não se podem abraçar quando estão separadas por um muro, por isso, é necessário que mais pessoas aprendam de Jesus manso e humilde e, convertidas, procurem, como Francisco de Assis e tantos outros, ser instrumentos de ‘paz e bem’.

 

O trabalho de alguns destes homens e mulheres em prol da paz e do respeito pelos direitos humanos, é anualmente reconhecido pela comunidade internacional através da atribuição do prémio nobel da paz. O Nobel da Paz é um legado do sueco Alfred Nobel. De acordo com a sua vontade, o prémio deveria distinguir “a pessoa que tivesse feito a maior ou melhor acção pela fraternidade entre as nações, pela abolição e redução dos esforços de guerra e pela manutenção e promoção de tratados de paz”.

 

Assim, por exemplo, em 1979, Madre Teresa de Calcutá, ganhou o Nobel pela luta contra a pobreza na Índia; em 1990 foi a vez de Mikhail Gorbachev (antiga URSS), pela sua contribuição para o fim da Guerra-fria; em 2004 a laureada foi Wangari Maathai, ambientalista e activista dos direitos humanos queniana; e em 2006 foi a vez de Muhammad Yunus (Bangladesh) e do seu banco de microcrédito, Banco Grameen, por ajudar milhares de famílias nos países mais pobres a conseguirem financiamento para montarem o seu próprio negócio.

 

Em 1996, foi a vez de dois timorenses, Dom Carlos Filipe Ximenes Belo, bispo católico, e José Ramos-Horta, pelo seu contínuo esforço para terminar com a opressão vigente em Timor-Leste, esperando que “o prémio despolete o encontro de uma solução diplomática para o conflito em Timor-Leste com base no direito dos povos à autodeterminação.”

 

Hoje, dez anos depois, Timor-Leste é um país independente mas em profunda crise de identidade, vivendo num permanente clima de instabilidade e violência, a exigir novos esforços de paz. Com um pouco de bom senso, facilmente poderemos verificar que, num país com 99% de católicos, não é apenas aquele 1%, que professa outras religiões, que está a provocar estragos nesta frágil democracia; se calhar esta é, antes, uma oportunidade para todos nós, católicos e discípulos de Jesus, reflectirmos sobre o que professamos no nosso Baptismo e iniciarmos uma caminhada de verdadeira conversão, valorizando menos a forma e a ‘lei’ e procurando amar a Deus e aos irmãos em espírito e verdade (Cf. Jo 4,23). No tempo da ocupação indonésia, alguns ‘asuwa’in’ (heróis/guerreiros das FALINTIL) tinham uma máxima que dizia: “taka kapote hamutuk ho inimigu” (trad. lit.: fechar o capote junto do inimigo). Hoje, os tempos são outros, é preciso começar a abrir o nosso coração aos outros e não a fechá-lo e, sobretudo, a despirmo-nos de nós mesmos para nos revestirmos das vestes – sentimentos e atitudes – de Cristo.

 

Desenhos no muro do estádio de futebol de Díli

 

Talvez nunca nenhum de nós chegue a ganhar o Nobel da Paz mas também não corremos atrás de uma coroa corruptível (Cf. 2Tm 9,25) porque a nossa herança é incorruptível e imaculada, e está reservada no Céu para nós (Cf. 1Pe 1,4). Talvez nunca nenhum de nós chegue a ganhar o Nobel da Paz mas ninguém nos liberta da obrigação, como baptizados, de nos tornarmos destruidores de muros e de tudo quanto afasta e divide os irmãos. Talvez nunca nenhum de nós chegue a ganhar o Nobel da Paz mas Jesus deixou-nos a promessa de, também nós, com ou sem prémio Nobel, nos chamarmos filhos de Deus, se nos tornássemos pacificadores (Cf. Mt 5,9). Temos uma grande oportunidade para o fazer, tornando-nos instrumentos de paz: fazer destes ‘dois povos’, lorosa’e e loromonu, um só, Timor ida de’it, povu ida de’it, Maromak ida de’it nia povu! (Um só Timor, um só povo, povo de Deus).

 

 

 

Frei Hermano Filipe

in FINI-Fiar Ida, Neon Ida, Dezembro de 2006

 

 
Página Principal | Capuchinhos em Portugal | Contactos | Ficha Técnica | Sugestões

© 2006 Ordem dos Frades Menores Capuchinhos (Portugal)