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Há ladrões na igreja!

 

Vem de longe, de muito longe a relação entre os Franciscanos e os «irmãos» ladrões. Ainda Francisco de Assis deambulava pelos bosques em demanda de um sentido para a vida, cantando louvores ao Deus altíssimo, e já uns ladrões o assaltaram. Com modos pidescos indagam quem é este estranho cantor. «Sou o arauto do Grande Rei» - contesta. Como a única riqueza que possui é a alegria de ser jogral do seu Senhor, depois de espancado, é atirado para uma cova cheia de neve. Afastam-se os salteadores. Francisco, saltando do barranco, continua alegremente a cantar os louvores ao Criador de todas as coisas.

 

Mais pitoresca é a cena de três cruéis ladrões que assaltavam, roubavam e matavam. Um dia bateram à porta do conventinho dos frades, em Monte Casale, ali para os lados de Borgo Sansepolcro, na Itália. Neste caso, justas eram as suas intenções e compreensíveis as suas necessidades: mendigavam um pouco de alimento para acalmar as reivindicações do estômago. O zeloso e bem informado guardião do convento aproveitou o ensejo para lhes pregar um valente sermão, misturado com insultos, impropérios, ameaças e pressões psicológicas, numa antecipação à escola de Guantânamo. Inesperadamente, Francisco passa por ali. E o guardião conta-lhe a proeza, com ares de herói vitorioso. Mas eis que, num abrir e fechar de olhos, se invertem os papéis. Agora, é a vez de frei Ângelo – assim se chamava o zeloso guardião – ser repreendido por Francisco. O santo não se fica com piedosas exortações. Ordena-lhe que, por montes e vales, procure os ladrões e lhes ofereça um lauto banquete de pão e vinho, que o próprio Francisco tinha mendigado para si e seus irmãos. E, sobretudo que, de joelhos, lhes peça humildemente perdão pela sua atitude nada fraterna. Conduzimos as pessoas a Deus com a doçura e não com ásperas repreensões – adverte o santo de Assis. Ladrões encontrados, saciados no corpo e no espírito, reconhecem piedosamente o seu errado estilo de vida. Resultado? Pela oração e atitude evangélica de Francisco, os três temíveis ladrões e assassinos convertem-se em mais três santos frades para o convento!

 

Passados oito séculos, continuam a bater à porta dos nossos conventos pessoas com as mais diversificadas intenções. «Sede prudentes como as serpentes e simples como as pombas» – adverte-nos o Mestre da Galileia, no Evangelho (Mt 10,16). Sim. Também somos assaltados! Nem sempre resistimos ao aliciante «conto do vigário». Fica-nos o alerta do Irmão de Assis: seríamos ladrões se não déssemos a quem precisa mais do que nós.

 

Uma das casas mais frequentadas pelos irmãos ladrões é o nosso convento do Amial, no Porto. Carros assaltados, computadores que voam durante a oração dos frades, máquinas roubadas, frigoríficos despejados, caixas das esmolas desventradas, capoeiras esvaziadas dos seus pacíficos moradores… Nem os debilitados Irmãos da Enfermaria escapam a algumas investidas mais arrojadas!

 

Nas vésperas da grande solenidade da Imaculada Conceição, em Dezembro passado, a ousadia foi longe demais. Pela calada da noite, assaltaram o cartório paroquial e a capela da Fraternidade, centro e oásis da vida dos Irmãos. O altar foi profanado e – pasmem-se – roubaram o próprio Sacrário, com a Santíssima Eucaristia, embora tendo o cuidado de deixar muitas velas acesas, espalhadas pela casa e pela capela… Convenhamos: em todas as profissões há gente com zelo e devoção.

 

Os Irmãos ficaram perplexos com atrevimento tão sacrílego. E lembraram aquele famoso naco de sermão sobre o monstro da guerra, pregado pelo nosso Padre António Vieira: «Nem Deus, nos templos e nos sacrários, está seguro!» Há quem recorde uma outra madrugada de ansiedade e a procura apaixonada de Maria Madalena: «Levaram o meu Senhor e não sei onde O puseram» (Jo 20,13). E porque no sacrário roubado se encontrava o Senhor, o maior tesouro dos Irmãos, «o bem, todo o bem, o sumo bem, toda a nossa riqueza e saciedade» - na síntese de Francisco de Assis, os fradinhos, alvoroçados, percorrem ruas, vielas e campos em demanda do seu Grande Tesouro. Qual amada do Cântico dos Cânticos vão perguntando aos guardas da cidade e a quantos com eles se cruzam pelos caminhos: «Vistes aquele que o meu coração ama?» (Ct 3,3).

 

É verdade que estes amigos do alheio têm alguns atenuantes e são merecedores do perdão dos Irmãos: eles «não sabem o que fizeram» (Lc 23,34), roubando o Sacrário com o Santíssimo Sacramento, cobiçando mais a aparência do sacrário do que a riqueza suprema da Eucaristia nele contida.

 

Encontrado o sacrário do Senhor, com o Senhor do sacrário e da fraternidade, o criterioso guardião, depois de sério discernimento e tendo auscultado os seus mais directos conselheiros, achou por bem decretar duas medidas de emergência. Em primeiro lugar, uma Hora Santa de Adoração e Reparação pela profanação do santíssimo Senhor Jesus Cristo na Sagrada Eucaristia. Depois, entregar a uma empresa da especialidade o cuidadoso estudo de um eficaz sistema de alarme, adaptado aos muitos meandros, esconderijos e labirintos da casa. E assim foi feito.

 

Passaram-se os dias e as noites. Sucederam-se as semanas. Nem tantas como as do profeta Daniel. E a paz voltou a reinar em todo o convento e no coração de cada Irmão. Ao Senhor da Eucaristia tinha agradado a Hora de adoração e reparação. Aos frades tranquilizava-os o sofisticado sistema de alarme.

 

Mas, tão paradisíaco bucolismo foi bruscamente interrompido. Era Quaresma. Quase ao romper da aurora soa finalmente o alarme. Os relógios marcavam exactamente seis horas e doze minutos. Alguns irmãos não ouviram; outros aperceberam-se de um estranho ruído, mas deitaram culpas ao despertador que teria soado antes da hora. Meia volta na cama e vá de sorver os últimos minutos do sono restaurador de fadigas apostólicas e de estudos académicos. Mas houve três irmãos que despertaram para a realidade. Sim. Havia intrusos na casa. Em poucos segundos é delineada uma estratégia. Tomam posições. Avançam. Ouvem-se ruídos de passos. Há vozes em surdina. Os inesperados madrugadores tinham penetrado na igreja da Imaculada. A operação é rápida. Em poucos segundos estão frente a frente os corajosos Irmãos capuchinhos e um «bando» de leigos, armados com espadas, capacetes e couraças! Useiros e vezeiros, tinham-se munido num famoso armeiro, com central em Tarso, mas com filiais espalhadas por todo o mundo. Sob as ordens e orientações de Paulo, o grande lutador: «Revesti-vos da armadura de Deus. Mantende-vos firmes, tendo cingido os vossos rins com a verdade, vestido a couraça da justiça e calçado os pés com a prontidão para anunciar o Evangelho da paz; acima de tudo, tomai o escudo da fé. Recebei ainda o capacete da salvação e a espada do Espírito, isto é, a palavra de Deus» (Ef 6,11-17). Perante tão inesperado (des)encontro, os nossos heróicos fradinhos, tal como aqueles guardas que, no Jardim das Oliveiras, vinham prender Jesus, «recuaram e caíram por terra» (Jo 18,6). Melhor, caíram em si. Afinal, qual o objectivo deste extemporâneo assalto? Este punhado de cristãos vinha tão-somente para a oração de louvor matinal, as Laudes da Liturgia das Horas!

 

Perante alguns sinais de justificada perturbação na fraternidade, foi Instituída uma Comissão de Inquérito «ad hoc». Prontamente se chegou a conclusões definitivas e verdadeiras. Coisa rara e admirável, num país onde campeia a corrupção, a mentira, o assalto, o roubo, o rápido enriquecimento mais do que suspeito… De acordo: revestidos de gravata e colarinho branco, embora nem todos «brancos e de olhos azuis», segundo a radiografia traçada pelo Presidente Lula para os causadores da vergonhosa crise mundial. Com o crescente desespero e indignação das multidões cada vez mais empobrecidas. Ficou lavrado em acta: a causa deve-se a deficiências detectadas no alarme, recentemente instalado. Não há sistema de alarme que consiga distinguir certeiramente entre os «violentos que, à força, se apoderam do Reino do Céu» (Mt 11,12), e os «covardes, infiéis, depravados, assassinos e mentirosos, cujo destino apocalíptico é o lago ardente de fogo e enxofre» (Ap 21,8).

 

Benditos «ladrões» que, pela manhãzinha, antes de partirem para aos seus postos de trabalho, assaltam a casa do Senhor para O adorar, louvar, bendizer e aclamar pela Sua presença no meio de nós e pelas maravilhas que Ele faz em favor do seu Povo e de todas as suas criaturas!

 

Benditos «ladrões» que, ao romper da aurora, nos alertam para o essencial: o encontro com Cristo na oração e na escuta da sua Palavra. Qual imprescindível tónico, oxigénio, bússola e GPS para as difíceis e sinuosas estradas da vida! Um dia para tornar os irmãos mais felizes exige esmerada preparação.

 

Aos ladrões da Oração, tal como ao bom ladrão da cruz, o Salvador do mundo, suspenso entre o Céu e a Terra, dirá: «Em verdade vos digo: hoje mesmo estareis comigo no Paraíso.» (Lc 23,43)

 

Que o português a canonizar proximamente, o Beato Nuno de Santa Maria, o nosso Santo Condestável, combatente vitorioso e místico carmelita, abençoe e proteja todos estes «arautos do Grande Rei»!

 

Em louvor de Cristo e de seus servos Francisco e Clara de Assis. Ámen.

 

 

 

frei Acílio Mendes

(Fátima, 09.04.2009)

 

09.04.2009

 

 
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