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O Espírito de Assis: 20 anos de um caminho a percorrer

 

 

O Espírito de Assis

 

20 anos de um caminho a percorrer

 

 

Naquela manhã do dia 27 de Outubro de 1986, quando o Santo Padre João Paulo II dava as boas-vindas aos representantes de todas as famílias religiosas reunidos na Porciúncula (Basílica de Santa Maria dos Anjos), surgiu no céu de Assis um esplêndido e auspicioso Arco-Íris, no qual todos viram um sinal de esperança e de paz. Pela primeira vez na história e a convite de um papa, os representantes das diversas igrejas, comunidades cristãs e grandes religiões do mundo se reuniram num mesmo lugar par rezarem e jejuarem pela paz. Celebramos neste mês 20 anos desse acontecimento profético de Assis que se transformou num ícon de paz e de esperança para a humanidade.

 

O mundo vivia então tempos atribulados. Em várias partes do mundo, surgiam focos de guerra. O muro de Berlim teimando em dividir a humanidade em “blocos” contrapostos e em manter um clima de “guerra fria”. Neste contexto, a ONU proclamou 1986 ano internacional da paz. João Paulo II, sempre atento aos sinais dos tempos, aproveitou a ocasião para, aquando da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos (25 Janeiro), tornar pública a iniciativa de uma Jornada de oração pela paz em Assis.

 

Para este “encontro especial” em Assis seriam convocadas as autoridades das Igrejas e Comunidades cristãs e representantes das religiões de todo o mundo. Na mesma altura o Papa recordava a urgência do empenho de toda a humanidade pela paz:

 

“Nenhum cristão, ou mesmo nenhum ser humano que acredite em Deus Criador do mundo e Senhor da história, pode permanecer indiferente perante um problema que toca intimamente o presente e o futuro da humanidade” (Homilia in Basilica Hostiensi, 25/01/1986).

 

Em Janeiro de 1993, quando a Europa sofria os horrores da guerra dos Balcãs, o bispo de Roma sentiu mais uma vez que era urgente voltar a Assis para, com todas as religiões, rezar pela paz.

 

Em 24 de Janeiro de 2002, poucos meses depois do trágico atentado de 11 de Setembro, o Papa convidou, mais uma vez, os representantes de todas Igrejas, Comunidades e religiões, para outra jornada de oração pela paz, mantendo assim bem vivo o sonho da paz e a profecia de Assis. Desta vez João Paul II escolheu o mesmo meio de transporte, o comboio, que seu predecessor João XXIII usara em 4 de Outubro de 1962, quando peregrinou a Assis para rezar pelo bom êxito do Concílio que si iniciaria dentro de poucos dias. Tal iniciativa era entendido, nas palavras do então Cardeal Ratzinger, como um símbolo de grande esperança e da peregrinação que a Igreja estava a percorrer na história presente:

 

“Quando, no dia 24 de Janeiro, sob um céu grávido de chuva, partiu o comboio que devia conduzir a Assis os representantes de um grande número de igrejas cristãs e comunidades eclesiais, juntamente com os representantes de muitas religiões mundiais, para testemunhar e rezar pela paz, este comboio pareceu-me como que um símbolo da nossa peregrinação na história. Não somos, na verdade, todos passageiros de um mesmo comboio? O facto que o comboio tenha escolhido como seu destino a paz e a justiça, a reconciliação dos povos e das religiões, não é com certeza uma grande ambição, e ao mesmo tempo, um sinal de esperança?”. E aquele que sucederia a João Paulo II na cátedra de Pedro, continua: “O Evento de Assis… foi sobretudo a expressão de um caminho, de uma busca, da peregrinação pela paz que só acontece se unida à justiça. De facto, onde falta a justiça, onde aos indivíduos são negados os direitos, a ausência de guerra pode ser apenas um véu detrás do qual se escondem a injustiça e a opressão”.

 

Um mês depois do encontro de Assis de 24 de Janeiro de 2002, João Paulo II enviou a todos os chefes de estado e governantes do mundo uma carta na qual apresentava o Decálogo de Assis para a paz, na qual reiterava a necessidade da família humana escolher o amor em vez do ódio.

 

Este clima e atitude de diálogo e encontro inspirado em S. Francisco e suscitado pelo Papa João Paulo II foi chamado pelo próprio Papa “espírito de Assis”. Designa-se com a expressão todos os esforços e iniciativas que visam alimentar esse “espírito” e mentalidade de aproximação cortês, amigável e respeitadora entre os diferentes mundos e sensibilidades religiosas, pondo em relevo que a paz é um dom de Deus que está no cerne e das grandes religiões. Tal “espírito” corresponde ao intuito primeiro que presidiu às grandes Jornadas de Oração pela paz em Assis, com os quais se “pretendia exprimir o desejo de educar para a paz através da divulgação de uma espiritualidade e de uma cultura de paz” (João Paulo II).

 

Duas décadas passadas, o “espírito de Assis” continua a ser um vento profético não só actual como vital para o futuro da humanidade e das religiões.

 

 

Porquê a ti, Assis?

 

Aludindo à “Jornada de oração pela paz em Assis” que se aproximava, o bispo de Roma anunciava então: “há um lugar no mundo onde todos se podem encontrar: Assis”. Assis é, de facto, esse lugar raro no mundo onde todos se podem sentir em casa e encontrar para reiniciar um caminho de aproximação entre os homens peregrinos da paz: “viemos a Assis de várias partes do mundo, significando o caminho comum que a humanidade é chamada a percorrer” (João Paulo II).

 

A figura humilde, alegre e pacífica do Irmão Francisco de Assis e a sensibilidade feminina e mística da sua amiga Clara inspiram só por si o encontro e o diálogo profundos: pela sua espiritualidade jovial, pelo seu sentido de fraternidade universal, pela sua busca constante da paz e reconciliação, pela sua recusa absoluta da violência e capacidade de ir ao encontro do “outro” sem armas nem prepotência.

 

Francisco de Assis é, de facto, visto por todos como o “irmão universal”. Há poucos anos foi considerado “o homem do milénio”. João Paulo II definiu-o o “homem da fronteira” (Discurso aos bispos italianos em Assis, 12 de Março de 1982). Tudo isto porque Francisco continua a falar aos homens de hoje e a interpelar nossos contemporâneos, independente da sua confissão religiosa ou adesão ideológica. Parece que cada um de nós vê no Pobrezinho de Assis algo de próprio ou do que desejaria ser. E, no fundo, há um Francisco em cada um de nós que se esforça por ir mais longe e fazer algo de melhor:

 

“O fascínio com que Francisco atrai a si crentes e não crentes é enorme: Constatámo-lo todos também naquele inesquecível encontro de oração em Assis, em 27 de Outubro de 1986. Entre as inumeráveis vias que a Misericórdia divina abre diante dos homens que buscam a verdade, o caminho percorrido por S. Francisco é talvez o mais rico em sugestões: certo é que ainda hoje S. Francisco exercita sobre muitas almas a atracção de uma experiência original e apaixonante” (João Paulo II).

 

Tudo isto porque o santo de Assis foi um intérprete genuíno da Mensagem de Cristo e o santo que soube conciliar, num equilíbrio raro, a adesão total ao Evangelho e a Cristo com uma capacidade sem medida de abertura ao outro, ao diferente, sobretudo ao que está “à margem”. Ele é um Cristão radical, na medida em que assume plenamente a sua identidade cristã. Está longe, porém, de ser um fundamentalista. Segue à letra o Evangelho, mas nada tem de intransigente.

 

Francisco ensina-nos, assim, que não temos que renunciar à nossa identidade ou convicções para podermos dialogar, mas também não necessitamos de ser intolerantes para testemunharmos a nossa fé. Foi a sua experiência cristã forte que dotou Francisco de uma capacidade imensa de encontrar-se com pessoas diferentes e envolvê-las em processos de reconciliação. O fundamentalismo nasce da insegurança ou do medo que o encontro com mo outro diferente ponha em risco a minha identidade.

 

A proposta franciscana não tem nada a ver com um irenismo poético que algum movimento pacifista hodierno poderia ser tentado a aproveitar. Na visão de Francisco, a paz é um dom gratuito do alto que só será acolhido pelos corações puros e reconciliados dispostos a “compreender antes de ser compreendido, a amar antes de ser amados, a perdoar antes de ser perdoado”.

 

O caminho da paz passa, na verdade, pela via do homem autêntico, originário, o homem reconciliado. E esse homem chama-se “irmão”. Francisco por ser autenticamente homem e totalmente reconciliado consigo e com todas as criaturas, considera-se e é visto como o irmão “menor” de todos. Cada homem é para ele um irmão e uma presença real do Deus sumamente bom no mundo. Ele é o homem totalmente livre e confiante que acredita na bondade natural de todos os homens e criaturas. E é daí que lhe vem essa capacidade de diálogo com as religiões e todos os homens e criaturas.

 

“O Senhor te dê a sua paz!” No seu Testamento Francisco apresenta esta saudação como tendo-lhe sido revelada pelo próprio Deus: “O senhor me revelou que dissesse esta saudação”. Mas não foi sobretudo com palavras que Francisco foi instrumento da “Paz de Deus”.

 

O Santo de Assis foi, de facto, um instrumento de paz activo em situações bem críticas: O seu gesto de perdão para com os irmãos ladrões; a sua mediação na reconciliação entre o bispo de Assis e a autoridade civil, o encontro pacífico com o Sultão Melek el Kamel do Egipto em tempo de cruzadas, a reconciliação com toda a criação (lobo de Gubio, cântico das criaturas).

 

Num período em que o maniqueísmo cátaro insistia em ver nas criaturas materiais algo de mau e adverso ao espírito, Francisco superou o velho maniqueísmo e o ancestral dualismo sagrado-profano, para louvar o Criador em todas as suas criaturas.

 

Não obstante o seu tempo ser de apelo à cruzada, Francisco foi o primeiro a delinear um programa revolucionário de abordagem ao mundo muçulmano, segundo o espírito do Evangelho. Foi o primeiro fundador a dedicar um capítulo da sua Regra (cap. 16) à evangelização do Islão, onde expõe o método missionário que os seus frades devem observar: “os irmãos que vão para entre os infiéis (muçulmanos) devem comportar-se no meio deles do seguinte modo: não litiguem nem disputem mas sujeitem-se a toda a criatura humana por amor de Deus e confessem ser cristãos”.

 

Nas palavras de Bento XVI, “S. Francisco emana ainda hoje o esplendor de uma paz que convenceu o Sultão e pode abater realmente os muros. Se nós, como cristãos, percorrermos o caminho para a paz seguindo o exemplo de S. Francisco, não temos que ter medo de perder a nossa identidade, pois é precisamente então que a encontraremos. E se outros se unem a nós na busca da paz e da justiça nem nós nem eles temos que temer que a verdade venha a ser diminuída por frases feitas. De modo algum. Se nos orientamos verdadeiramente par a paz, então estamos no caminho certo, porque estamos no caminho do Deus da paz”.

 

Graças à singular simplicidade e cortesia deste homem pobre, paciente, e apaixonado por Deus e suas criaturas, a pacata cidadezinha de Assis que serviu de berço à sua aventura, transformou-se numa reserva de paz e fraternidade universal capaz de reunir e tocar os corações de todos os homens de boa vontade.

 

 

Significado de um acontecimento profético

 

Papa João Paulo II, homem de gestos proféticos como o Poverello de quem era profundo admirador (visitou Assis, enquanto papa, 6 vezes), ao convocar os chefes de todas as famílias religiosas para rezarem pela paz, não tinha em mente uma espécie de parlamento das religiões que se juntavam para negociar entre si a paz, ou para constituírem uma força de influência perante as potências do mundo. Cristãos, Judeus, Muçulmanos, budistas e outros encontram-se em Assis para rezar pela paz, não de um modo sincretista ou proselitista, mas a partir da intimidade com o mesmo Deus e da proximidade com os irmãos diferentes. Em nenhum desses encontros esteve em causa a procura de um mínimo denominador comum ou de um consenso religioso entre os presentes.

 

Os representantes das diversas confissões “reuniram-se juntos para rezar”, segundo a modalidade própria de cada um, e não para “rezar em comum”. Reunir-se em Assis para rezar, respeitando a modalidade de cada um, visava pôr em evidência, como oportunamente explicou o Papa, “que existe uma outra dimensão da paz e um outro modo de a promover, que não resulta de negociações, de compromissos políticos ou de negociações económicas, mas é o resultado da oração, que, apesar da diversidade das religiões, exprime uma relação com um poder supremo que ultrapassa as nossas simples capacidades humanas”.

 

Dentro deste respeito recíproco, abrem-se mil possibilidades de pacificamente testemunhar as respectivas crenças e de trabalhar solidariamente pelo bem da humanidade. Esta é, aliás, uma das melhores e mais actuais lições de “Assis”: Respeitando as diferenças doutrinais que separam as diversas crenças, a oração pode unir os corações e os crentes na busca da justiça e da paz, refutando toda a tentação de utilizar a religião como arma de guerra.

 

Assis assinala, assim, um novo caminho para a paz o qual passa pela aproximação entre os crentes de todas as religiões e um modo novo de dialogar em seriedade e profundidade entre as respectivas religiões.

 

Assis passou, desde então, a ser a memória e o símbolo mais forte de um caminho novo a percorrer: “O facto de termos vindo a Assis, dizia então o Papa João Paulo II, provenientes de tão diversas regiões do mundo é já um sinal deste caminho comum que a humanidade está chamada a percorrer”.

 

Num discurso aos peregrinos proferido em 15 de Março de 1994, João Paulo II retomava a metáfora do “caminho” como categoria adequada ao “Espírito de Assis”: “Desejo encorajar todos os que vieram a Assis no seu caminho. Este mundo precisa que os homens e mulheres sensíveis aos valores religiosos ajudem os outros a encontrar o gosto e a vontade de caminhar juntos. Este é o ‘espírito de Assis’”.

 

Na verdade, a paz só acontecerá quando a tudo se antepuser ao encontro com o homem, respeitando a sua cultura e tradições, promovendo a justiça também entre os mais pequenos, dando a todos a possibilidade de exprimirem e relacionarem com liberdade, garantido os direitos fundamentais de todos os indivíduos enquanto membros de uma mesma família humana. Por isso, também as religiões, porque feitas de homens, não se devem poupar na promoção de condições de uma vida minimamente digna para todos os homens e mulheres.

 

Contra os que anunciam um futuro de “guerras religiosas” e conflitos entre as civilizações, há que não deixar abafar o eco daquelas palavras fortes de João Paulo II em Assis, em 2002: “Mai più violenza! Nunca mais a violência! Nunca mais a guerra! Nunca mais o terrorismo! Em nome de Deus cada religião deve trazer a terra a justiça e paz, perdão e vida”.

 

 

 

Frei Isidro P. Lamelas (OFM)

www.agencia.ecclesia.pt, 19/10/2006

 

 
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