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Abbé Pierre

 

 

 

Morreu o Abbé Pierre,

“um gigante da misericórdia”

 

Na figura física parecia o nosso frei Inácio de Vegas: a calva, a barba, o olhar vivo, o sorriso, o dedo indicador em riste, a veste clerical; na acção e na coragem de denúncia da pobreza e das injustiças sociais, lembrava o Padre-“Pai” Américo; na abertura ecuménica e na defesa das vítimas do nazismo, o irmão Roger, fundador da Comunidade de Taizé, e o cônsul português em Bordéus, Aristides Sousa Mendes. Tudo homens de uma só ideia: serem fiéis ao Evangelho, em nome da sua fé, servindo Jesus Cristo na pessoa dos mais pobres e oprimidos.  

 

 Abbé Pierre

 

Tinha 94 anos e era o quinto de oito filhos. Nascido em Lyon (França) a 5 de Agosto de 1912, recebeu o nome de Henri-Antoine. Fez os primeiros estudos no colégio dos jesuítas, e com 18 anos, em 1930, entrou na Ordem dos Capuchinhos, passando a chamar-se frei Filipe de Lyon. Ordenado sacerdote em 1938, deixou a Ordem no ano seguinte. Servindo logo na II Guerra Mundial e foi, depois, capelão da marinha. Ao lado da Resistência Francesa, ajudou muitos judeus perseguidos pelo nazismo a passar para a Suíça. Adoptou, então, o nome de Pedro (pedra ou rocha, segundo a raiz hebraica) – o Padre Pedro, ou Abbé Pierre, como se tornou mundialmente conhecido. Durante 17 anos consecutivos (1989-2003), foi considerado a personalidade mais estimada pela França.

 

 

A “insurreição da bondade”

 

Procurado pela Gestapo, foi preso por três vezes. Depois da guerra, em 1945, foi eleito deputado da Assembleia Nacional por Meurthe-et-Moselle, saindo em 1951 como protesto contra uma lei eleitoral injusta. Mas no ano de 1950 tinha lutado pela aprovação de uma lei que impediria os proprietários de expulsarem inquilinos durante os meses de Inverno. E numa noite de Inverno de 1954, através da Rádio Luxemburgo, apelou à “insurreição da bondade” a favor dos sem-abrigo. A onda de solidariedade então desencadeada atingiu o próprio Parlamento, que decidiu lançar um programa urgente de 12000 alojamentos.

 

Cinquenta anos depois, em 2004, lançou um novo “Manifesto contra a pobreza” em França, onde há cinco milhões de excluídos, dentre os quais um milhão de crianças. Por tudo isso, o Presidente Chirac atribuiu-lhe, entre outras, em 2001, a Grande Cruz da Legião de Honra, a maior condecoração oficial francesa. E disse, agora, que «toda a França é tocada no coração», com a sua morte.

 

Abbé Pierre

 

 

“Tentou amar”

 

Faleceu às 5:25 locais do dia 22 de Janeiro, de uma infecção no pulmão direito, que o retinha no Hospital Val-de-Grâce, em Paris, desde o dia 14. Após a Missa de funeral na catedral de Notre-Dame, em Paris, na Sexta-feira, dia 26, o caixão será transferido para a sua comunidade de Esteville en Seine Maritime, onde o corpo será inumado na mais estrita intimidade. Para o túmulo, o Abbé Pierre tinha querido este epitáfio: “Il a essayé d’aimer” (Tentou amar). E exprimiu este desejo: «Não coloquem sobre o meu túmulo flores ou coroas, mas tragam-me listas de milhares de famílias, de crianças a quem tenham dado as chaves de uma verdadeira casa.» Raymond Etienne, presidente da “Fundação Abbé Pierre” desde 1993, evocou este desejo ao anunciar a morte do seu fundador, pedindo que não levem flores para o seu funeral, mas «utilizem o dinheiro para defender a causa dois mais desfavorecidos».

 

É que «a vida eterna – tinha ele escrito – não começa depois da morte. Começa agora, nesta vida, na escolha que fazemos cada dia de nos bastarmos a nós mesmos ou de comungarmos nas alegrias e nos sofrimentos dos outros» (Mémoires d’un croyant, 1999).

 

Ele, há muito que tinha escolhido: «Eu sofro do sofrimento dos sofredores.» E porque não se deixou atingir pela «praga da indiferença», que tanto denunciava, o cardeal Godfried Daneels, arcebispo de Bruxelas, pôde chamar-lhe, ao saber da sua morte, um «gigante da misericórdia». Pois, explicou, «para lá das particularidades religiosas e filosóficas, ele lembrava a cada um de nós o nosso dever de humanidade».

 

 

Frei Lopes Morgado

 

 

 

Os companheiros de Emaús

 

No momento exacto, o frei Filipe de Lyon sentiu que a Ordem dos Capuchinhos não estava preparada para entender o seu espírito “insubmisso”, que trocava a intimidade da paz conventual pelo risco do convívio com os marginalizados e com eles se demorava longas horas do dia e da noite. E seguiu a voz do Espírito – como Francisco, no início – indo viver o Evangelho entre os pobres e leprosos do seu tempo.

 

São Francisco dizia que não devíamos apropriar-nos dos méritos daqueles que, sem mérito nosso, muito sofreram e se esforçaram por serem santos. Nem pretender tranquilizar a consciência só com narrar os seus méritos (Avisos Espirituais, 7). É o caso. Mas não podia deixar de referir a formação fraciscana do Abbé Pierre, que certamente motivou a sua opção de vida: «Sofrer o sofrimento dos sofredores», como ele dizia. Nem de recordar que, nestes últimos anos de vida, mês sim, mês não, ele se refugiava na solidão austera de um convento dos Capuchinhos, na Normandia, a rezar e a escrever.

 

A sua obra emblemática são os Companheiros (ou Trapeiros) de Emaús, que ele fundou em Novembro de 1949, inspirado no episódio de Lc 24,13ss: quando os dois discípulos que regressavam, desanimados, para a sua aldeia de Emaús, no caminho, ao encontrarem-se com o Senhor ressuscitado, reencontraram a esperança e o sentido para a vida. Nesta comunidade, cada pessoa é acolhida tal como é, promovida nos seus valores e diferenças e motivada a acolher as outras. Esta gente não pertence ao grupo dos “sem-abrigo”; pelo contrário, aprende a construir o seu próprio abrigo e a resolver a falta de alojamento dos mais carecidos dele. A pedagogia é fazer dos seus membros construtores de um abrigo para si e para os outros, recuperando os desperdícios e descartáveis da sociedade consumista.

 

Hoje, o Movimento Emaús está implantado em 37 países. Só em França existem 110 comunidades. Em Portugal entrou em meados da década de 80 e tem um grupo de 20 a 30 companheiros em Caneças (Loures) e dois no Porto com 10 companheiros cada um.

 

L.M.

 

 

 
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