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Vidas que deixam marcas

Padre Carlos de Villapadierna

 

 

 

Obrigado, Padre Carlos

 

 

No dia 28 de Novembro passado (2006), faleceu em Leão, na Espanha, com 81 anos de idade, o PaPadre Carlos de Villapadiernadre Carlos de Villapadierna. A muitos dos nossos visitantes, talvez este nome não diga nada. Mas compreenderão que o lembremos aqui, se dissermos que foi a alma gémea do frei Inácio de Vegas no amor à Palavra de Deus, e iniciador, com ele, do nosso Movimento Bíblico, concretizado na fundação da revista BÍBLICA e da DIFUSORA BÍBLICA. Podemos até dizer que lhe serviu de caução, dando às iniciativas mais carismáticas do frei Inácio a consistência bíblico-teológica de que às vezes era preciso fazer prova junto de alguns bispos, sacerdotes ou leigos mais exigentes.

 

Estudioso e servidor da Palavra. Nasceu na aldeia de Villapadierna, situada ao norte da província leonesa, exactamente a 51 km da cidade de Leão. É banhada pelo rio Esla, afluente do Douro, e encontra-se a 900 metros de altitude. No baptismo recebeu o nome de Eliecer, em português Eleázar; curiosamente, um nome dado a três figuras bíblicas diferentes: a um dos filhos de Aarão (Ex 6,23), a um dos valentes ajudantes de David na batalha contra os filisteus (2 Sm 23,9) e um dos sacerdotes de fala o livro de Neemias, quando da dedicação das muralhas de Jerusalém (Ne 12,41). Em Agosto de 1933 entrou no Seminário Menor dos Capuchinhos, e em 13 de Outubro de 1940, ao vestir o hábito para iniciar o Noviciado, foi-lhe dado o nome de frei Carlos de Villapadierna. Fez a profissão simples a 1 de Outubro de 1941 e os votos perpétuos três anos depois, sendo ordenado sacerdote em Leão a 13 de Março de 1948.

 

Concluída a licenciatura em Teologia em Salamanca (1949) e em Sagrada Escritura no Pontifício Instituto Bíblico de Roma (1951) com uma tese sobre S. Paulo, foi logo enviado para o Colégio de Teologia dos Capuchinhos, em Leão, onde permaneceu como Professor de Sagrada Escritura durante 21 anos. Ali tive a sorte de ser seu aluno, no triénio de 1957-1960, e o gosto de jogar futebol a seu lado nos habituais desafios de “Leão e Portugal contra o resto”. Em 1959 foi cofundador da revista Evangelio y Vida, dos Capuchinhos de Castela, que dirigiu durante 26 anos e na qual colaborou até à morte. Lembro-me perfeitamente de o termos interpelado, em plena aula, quanto à primeira parte do título, que nos parecia redutor do todo da Bíblia; devolveu-nos o argumento, demonstrando que os redutores éramos nós, pois “Evangelho” referia-se à Boa-Nova da Palavra de Deus, de que já falava o profeta Isaías, e não a um conjunto de livros do Novo Testamento… Em 1970 passou também a ensinar Sagrada Escritura no Seminário Conciliar de Astorga e, a partir de 1977, no de Leão.  

 

Entrada de Villapadierna

 

Em 30 de Outubro de 1984, tendo cessado os Estudos Superiores dos Capuchinhos naquele convento, o Padre Carlos incardinou-se definitivamente na diocese de Astorga e assumiu a missão de pároco em Palacios de Rueda, a 2 kms de Villapadierna, continuando a leccionar Sagrada Escritura naqueles dois Seminários Conciliares e no Instituto Teológico “San Froilán”, em Leão. Nesta cidade, na igreja de São Francisco, dos Franciscanos Capuchinhos, foi celebrada a missa do seu funeral, presidida pelo bispo diocesano e concelebrada por uma centena de sacerdotes.

 

Das suas obras, destacam-se: Por los caminos del Señor (viagem pelo Médio Oriente), El Mensaje de la Biblia (traduzido em português pelo frei Fernando de Negreiros e editado pela Difusora Bíblica em 1959) e Reflexiones dominicales sobre el Evangelio, lançado em Novembro passado. Dirigiu, em colaboração, uma tradução espanhola do Novo Testamento (ed. DB de Madrid) e participou na tradução da Bíblia Sagrada más bella del Mundo (Ed. Codex) e de La Santa Bíblia (1ª edição ecuménica), além de colaborar em duas Enciclopédias e em três Dicionários, e um sem-número de revistas.

 

Igreja de Villapadirena

 

O actual director de Evangelio y Vida, frei Domingo Montero, dedica-lhe o Editorial do nº de Janeiro-Fevereiro deste ano, sob o título Hasta siempre, Padre Carlos!, onde faz esta bela síntese da sua vida: «O P. Carlos foi um estudioso e um servidor da Palavra de Deus; esta foi a sua actividade e a sua paixão preferencial. Neste domínio, a sua folha de serviço é ampla e rica.»

 

Presença discreta, mas eficaz. Foram muitas e oportunas as vindas do Padre Carlos a Portugal, nos anos de fundação e consolidação do Movimento Bíblico. Quase telegraficamente, recordo estas datas registadas na História: a 18 de Junho de 1955 é nomeado censor da revista Bíblica; antes de Outubro vem a Portugal, onde revê as notas da tradução dos Feitos dos Apóstolos, impressos em Gouveia nos últimos meses desse ano. De 9 a 13 de Abril de 1956, participa em Fátima na I Semana Nacional de Estudos Bíblicos, onde é conferencista principal com os temas: Orientações pontifícias e questões bíblicas actuais; Problemas pedagógicos suscitados pelos modernos progressos bíblicos; Problemática do sentido pleno; Boletim escriturístico (as principais publicações modernas de utilidade para sacerdotes e seminaristas); Informação sobre interpretações dos principais textos mariológicos do AT; Meios para um renascimento bíblico entre fiéis e sacerdotes.

 

No dia 1 de Fevereiro de 1957 vem a Lisboa para assistir a uma reunião destinada a organizar a propaganda bíblica e coordenar novos projectos, voltando para Leão no dia 6. A 28 e 29 de Novembro participa, em Lisboa, com mais três capuchinhos de Castela e vários professores de Portugal, na I Reunião Bíblica Luso-Espanhola, onde expõe os temas: Meios práticos de levar ao povo a Palavra de Deus; A Bíblia e os últimos achados bíblicos.

 

Em fins de 1958 diz, em Espanha, que o movimento editorial da Difusora Bíblica, nessa altura, era o maior de toda a Europa. Em Santa Marta del Tormes, junto a Salamanca, realiza-se, então, uma Reunião Bíblica dos Religiosos da Província de Castela, em que também participa o frei Inácio. Um dos frutos é o lançamento da referida revista Evangelio y Vida, no início de 1959, certamente por influência do bom resultado da revista Bíblica, em Portugal.

 

A 4 e 5 de Janeiro de 1960, participa numa reunião de estudos bíblicos, e Lisboa, donde saíram decisões como «espalhar as edições bíblicas em toda a América Latina, sobretudo através de revistas de divulgação e edições dos evangelhos a preços populares (o que seria concretizado pelo frei Inácio alguns anos depois); habituar os cristãos a ler e meditar a Bíblia, sobretudo os Evangelhos, se possível em família; potenciar o movimento bíblico católico como meio de aproximação das igrejas cristãs». Nessa altura, o Padre Carlos mantinha na nossa revista Bíblica a secção “Livros e Revistas”, de informação permanente dos principais livros, revistas ou dicionários que em todo o mundo iam sendo publicados.

 

Mas, sobretudo, esteve na reunião dos responsáveis do Movimento Bíblico, a 3 e 4 de Outubro de 1963, onde foi decidido «que a DIFUSORA BÍBLICA promovesse a edição da Bíblia completa, em tradução dos originais, na língua mater, com notas e comentários genuínos e actualizados, segundo a ciência bíblica moderna». Foi enorme o trabalho de Frei Fernando de Negreiros na concretização deste projecto, desde as fases da tradução, composição e revisão, até às da impressão, acabamento e encadernação. Mas, sem a colaboração e apoio do Padre Carlos, essa BÍBLIA SAGRADA não teria aparecido em Janeiro de 1965, exactamente um ano antes do encerramento do Concílio Ecuménico Vaticano II, que na Dei Verbum recomendava se fizessem «traduções apropriadas e cuidadas nas várias línguas, sobretudo a partir dos textos originais dos livros sagrados» (nº 22).

 

Com a partida definitiva do frei Inácio para Espanha, em 1964, o Padre Carlos também deixou de aparecer por cá. Mas sempre manteve a simpatia pelo nosso Movimento e não perdeu de vista os passos do frei Inácio pela América Latina.

 

Prova desta dupla amizade, nunca regateada, foi a sua presença a 26 de Agosto de 2002, na igreja paroquial do Coração de Jesus, em Usera, Madrid, confiada aos Capuchinhos de Castela, para uma última homenagem ao frei Inácio no dia do seu funeral. Foi, também, o nosso último encontro pessoal. Obrigado, Padre Carlos!

 

 

 

Frei Lopes Morgado

 

 
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