<%@ Language=VBScript %> Ordem dos Frades Menores Capuchinhos

PAZ e BEM! Bem-vindo à Página dos Frades Missionários Capuchinhos

Página Principal


São Francisco Assis


Espírito de Assis


Porciúncula


Ordem Capuchinhos


Missão em Timor


Onde Vivemos


Espaço Jovem


Música


Apontadores


 
Bíblia Sagrada

Como ler a Bíblia?

PARA LER UM TEXTO BÍBLICO

A PALAVRA E O LIVRO

A fé cristã não é uma "religião do Livro". O Cristianismo é a religião da "Palavra" de Deus, "não uma palavra escrita e muda, mas do Verbo encarnado e vivo" (São Bernardo). Para que não seja letra morta, é preciso que Cristo, Palavra eterna do Deus vivo, pelo Espírito Santo, nos «abra o espírito ao entendimento das Escrituras» (Lc 24,45).

O Concílio Vaticano II indica três critérios para uma interpretação da Escritura conforme ao Espírito que a inspirou:

1. Prestar grande atenção ao "conteúdo e à unidade de toda a Escritura".

2. Ler a Escritura "na tradição viva de toda a Igreja".

3. Estar atento à "analogia da fé". Por "analogia da fé" entendemos a coesão das verdades da fé entre si e no projecto total da Revelação.

(Catecismo da Igreja Católica, nº 109, 112 e 113)

__________________________________________

COMO LER A BÍBLIA?

1. PERGUNTAS A FAZER ANTES DE LER A BÍBLIA

1.1. A Bíblia: Livro do povo de Deus, ou dos teólogos? Carlos Mesters diz-nos que o mundo da Bíblia tem duas portas: a da letra, por onde entram só os doutores e os estudiosos; e a do Espírito, por onde pode entrar todo o Povo (Para além das Palavras, prólogo). Para muitos, a Bíblia continua a ser mais um livro de ciência e de cultura, do que de fé; de teorias e explicações, do que de vida; de informação, do que de formação. Por isso ligam mais à letra, do que ao Espírito; à exegese científica, do que à espiritual.

1.2. A Bíblia: Palavra de Deus, ou dos homens? Para uma boa leitura e interpretação da Bíblia temos de ter sempre presente o que ela é em si, o seu mistério: Palavra de Deus em linguagem humana (DV 12). Palavra de Deus, porque foi «divinamente inspirada» (2 Tm 3,16-17); palavra dos homens, porque «Deus, para a redigir, serviu-se de homens na posse das suas faculdades e possibilidades» (DV 11).

1.3. A Bíblia: Livro de ciência, ou de fé? A Bíblia não pode deixar de ter elementos de cultura, Ciência e História, que é preciso ter presente ao lê-la e interpretá-la, se quisermos saber a intenção do autor e o que ele nos quis transmitir com as suas palavras (DV 12). Mas , o povo tem mais fome e sede de fé, esperança e amor do que de cultura. Para ele, o mais importante não são as passagens difíceis da Bíblia, nem as discussões e polémicas que elas suscitaram através da História, nem mesmo o que Deus poderá ter revelado noutros tempos aos escritores da Bíblia, mas sim o sentido que essa Palavra de Deus tem, hoje, para a sua vida, a fim de encontrar uma razão para viver e poder enfrentar o futuro com mais esperança. Ora, será a leitura espiritual que abrirá o caminho para satisfazer essa fome e sede do Povo de Deus. Ela é acessível a todos, desde o Papa até ao último cristão, passando pelos próprios exegetas.

2. COMO A BÍBLIA SE LÊ E INTERPRETA A SI MESMA

A melhor maneira de saber como a Bíblia deve ser lida e interpretada é examinar como ela própria o tem feito através dos séculos. Com grande liberdade e fidelidade, os autores da Bíblia compunham sempre quadros novos com tradições e textos antigos, em vista das novas situações. A Bíblia é, quase na sua totalidade, a expressão literária dessa "releitura" e reinterpretação constante que o Povo de Deus fazia do seu passado e da sua história, à luz da fé, com ajuda dos textos antigos' em ordem a uma maior e melhor compreensão do presente.

2.1. As "releituras" do Antigo Testamento. Para as realizar, foi fundamental a fé do povo no "Deus connosco". Certeza que não se prova, mas dá sentido a tudo, e que consistia na consciência de que o mesmo Deus, que orientou a vida do povo no passado, continuava a orientar o mesmo povo no presente. Todas as verdades e dogmas, todas as práticas e instituições, todas as cerimónias, interpretações e sínteses do passado tinham essa finalidade. Segundo Carlos Mesters, a Bíblia é uma árvore secular em cujo tronco se vêem os anéis sucessivos do seu crescimento através dos séculos.

2.2. As releituras do Novo Testamento. Pode dizer-se que o NT é uma "releitura" global do Antigo. É a nova visão da história antiga que brotou da mente dos primeiros cristãos, à luz da ressurreição de Cristo. Está recheado de sínteses, alusões, evocações e citações do AT, de tal maneira que desconhecer o AT é arriscar-se a não compreender bem o Novo. Ver: o discurso de Santo Estêvão (Act 7,1-53), o discurso de Paulo, na Sinagoga de Antioquia da Pisídia (Act 13,16-41), a síntese sobre a fé em Jesus Cristo, esclarecida à luz das grandes figuras do passado (Heb 11,1-12,13), o Apocalipse de João, etc.

Salta à vista a liberdade, para não dizer arbitrariedade, com que os primeiros cristãos citam e utilizam os textos do AT (ver 1 Cor 10,4; Gl 4,21-27). Existem casos em que o texto original dizia exactamente o contrário (Act 2,25-28). Os primeiros cristãos não viviam preocupados, como nós hoje, com o sentido histórico-literal do texto antigo, mas em exprimir, por meio deles, a fé nova que tinham em Jesus Cristo. Tinham a consciência nova que irrompeu na comunidade a partir da experiência pascal: Cristo Ressuscitado vive no seio da comunidade, através do seu Espírito!

Há, portanto, uma certa continuidade entre a maneira de o Novo Testamento usar o Antigo e os documentos da Igreja usarem a Bíblia. Atitude idêntica existe hoje no povo simples, quando se reúne, em grupos, para ler e interpretar a Sagrada Escritura. O seu interesse principal não está em saber o que a exegese descobriu a respeito do seu sentido histórico literal, mas o sentido que ele tem para nós.

3. COMO DEVE A IGREJA LER E INTERPRETAR A BÍBLIA

Sente-se a necessidade de acabar com o divórcio existente entre a Bíblia e a vida. Sem cair no misticismo nem descuidar as leituras culturais e científicas, é preciso, sobretudo, descobrir o sentido que o texto bíblico tem para nós, hoje.

3.1. Deve ser lida e interpretada segundo a sua própria finalidade. Todas as coisas têm um fim determinado e só utilizando-as segundo esse objectivo para que foram criadas, realizam a sua missão e satisfazem. Ora a Bíblia foi escrita para que as pessoas acreditem e, acreditando, esperem e, esperando, amem (DV 1). É o livro da Revelação de Deus à humanidade e da resposta da humanidade a Deus Revelador (DV 2 e 5); é o livro da fé do povo de Deus (Ver Lc 1,1-4; Jo 20,30). Tudo o mais que nela existe é em função disso e para isso. Portanto, se quisermos, à partida, resolver muitos problemas e evitar muitas confusões na leitura da Bíblia, procuremos nela só aquilo que ela nos pode oferecer.

3.2. Deve ser lida e interpretada com Espírito que a inspirou. Sendo a revelação de Deus e dos seus mistérios (DV, 2), contém verdades que transcendem os limites da capacidade humana. Como está escrito, são coisas que «nem o olho viu, nem o ouvido ouviu, nem jamais passou pelo pensamento do humano» (1 Cor 2,9). Não pertencem ao domínio da sabedoria dos homens. Mas Deus revelou-as por meio do Espírito (2 Tm 3,16); por isso, só Ele e quem o possuir estará em condições de as ler e interpretar: «As coisas que são de Deus ninguém as conhece, a não ser o Espírito de Deus.» (1 Cor 2,11b).

O meio para sintonizar com Ele é a fé. Por isso, a primeira função da Bíblia é acender essa luz, antes mesmo de nos transmitir o seu conteúdo ou doutrina. Será ela que dará ao leitor a consciência de que Deus lhe fala ao ler a Bíblia e o colocará na condição de compreender o sentido da sua mensagem. Por isso nem sempre os mais cultos e doutos lêem ou interpretar melhor as Sagradas Escrituras, mas aqueles que acreditam e se abrem à acção do Espírito Santo.

3.3. Deve ser lida e interpretada em clima de oração. A Bíblia não é um livro de recreio, nem de cultura; é o livro da fé e oração do Povo de Deus para meditar e viver. Não deve ser lido como um romance, um compêndio de história ou um manual de filosofia. Sendo o livro do diálogo entre Deus e a humanidade, a oração é o ambiente mais apropriado para nos lermos/escutarmos e partilharmos a sua Palavra e continuarmos o diálogo com Ele. Lida em ambiente de oração, faremos dela oração e sentiremos que ela é Palavra de Deus. «A leitura da Sagrada Escritura deve ser acompanhada da oração para que se verifique o colóquio entre Deus e o homem; pois com Ele falamos quando rezamos; a Ele ouvimos quando lemos os divinos mistérios.» (DV 25)

3.4. Deve ser interpretada com maturidade humana e cristã. «Deus, na Sagrada Escritura, falou-nos por meio de homens e à maneira humana, servindo-se dos hagiógrafos como autores na posse das suas faculdades.» (DV 72) Quer dizer que os textos sagrados não foram revelados, mas só inspirados deixando espaço para a liberdade e personalidade dos escritores bíblicos. Isto faz da Bíblia um livro complexo e difícil de ler e interpretar (2 Pe 3,14-16) , exigindo, para além da fé, preparação e maturidade: para aceitar a linguagem humana da Palavra de Deus; para sentir-se livre perante o acessório do passado bíblico e preocupar-se sobretudo com as grandes linhas da História da Salvação; para ser responsável transmitindo com fidelidade a revelação contida nas Sagradas Escrituras fazendo a união entre o passado e o futuro; para ler a Bíblia mais como um compromisso de vida evangélica, do que um seguro ou garantia de salvação.

Esta maturidade é mais espiritual do que humana, porque se trata dum livro de fé. Assim, coisas que antes eram confusas e complicadas, tornam-se claras e acessíveis depois duma caminhada na leitura e meditação da Palavra de Deus

3.5. Deve ser lida e interpretada numa comunidade de fé. A Bíblia não é obra dum indivíduo, mas de todo o Povo de Deus Nasceu de grupos ou comunidades que viveram, partilharam, transmitiram e escreveram as suas experiências religiosas Por isso não é um livro só, mas 72 (73) e todos muito diferentes Sendo, portanto, a comunidade crente a sua matriz geradora, será também ela o contexto vital da sua leitura e interpretação. Nela, a Palavra de Deus encontra outro eco e tem outra ressonância. Cada pessoa ouvindo a mesma Palavra, descobre nela aspectos diferentes.

A Sagrada Escritura não pode, pois, ficar ao sabor do indivíduo, ao "livre arbítrio" de cada um, sob pena de a trairmos enganando-nos a nós próprios A solução será um grupo. Ele será o apoio e a garantia da nossa fidelidade na leitura e interpretação da Palavra de Deus. Mas para isso têm de guardar as condições apontadas na Evangelii Nuntiandi, n. 58:

1. Procurar o seu alimento na Palavra de Deus e não se deixar enredar pela polarização política ou pelas ideologias que estejam na moda, dispostas a explorar o seu imenso potencial humano.

2. Evitar a tentação sempre ameaçadora da contestação sistemática e do espírito hipercrítico, sob pretexto de autenticidade e de espírito de colaboração.

3. Permanecer firmemente ligados à Igreja local em que se insere, e à Igreja universal, evitando assim o perigo - por demais real! - de se isolar em si mesmo e depois de se crer a única autêntica Igreja de Cristo, e, por consequência. perigo de anatematizar as outras comunidades eclesiais.

4. Manter uma comunhão sincera com os Pastores que o Senhor dá à sua Igreja, e também com o Magistério que o Espírito de Cristo lhes confiou.

5. Jamais se considerar como destinatário único ou como o único agente de evangelização - ou por outra, como depositário do Evangelho - mas, consciente de que a Igreja é muito mais vasta e diversificada, aceitem que esta Igreja se encarna de outras maneiras, que não só através deles.

6. Progrida cada dia na consciência do dever missionário e em zelo, aplicação e irradiação neste aspecto; se demonstre em tudo universalista e nunca sectário.

_________________________________________

DIVERSAS FASES DA LEITURA DE UM TEXTO DO EVANGELHO

1. Descobrir o texto original

O mais importante da Bíblia é o texto original. Só ele é inspirado. Foi por ele que Deus falou ao hagiógrafo que o escreveu, e, através dele, ao Povo. Será também por ele que Deus nos falará, hoje. E por isso que a primeira preocupação da exegese é chegar ao texto original. Para isso há todo um trabalho inicial, que se chama o estudo crítico do texto, cuja missão é estudar os textos bíblicos nos seus manuscritos mais acreditados e mais antigos.

Há uma multidão desses manuscritos (pergaminhos e papiros) com imensas variantes entre si, que torna o trabalho muito difícil e complexo. Um exemplo disto é o final do Evangelho de Marcos (Mc 16,19-20). Esta parte do Evangelho falta em alguns manuscritos muito importantes como o Vaticano e Sinaítico e em muitas traduções antigas deste evangelho para siríaco, arménio e etíope; isto levou muitos exegetas a duvidar da sua canonicidade. Mas, por outro lado, encontraram-se também muitos manuscritos e traduções antigas, não menos importantes que os primeiros, com esta passagem, o que levou os entendidos à conclusão de tratar-se dum texto verdadeiramente canónico e, portanto, inspirado, mas de autor diferente do resto do Evangelho.

2. Estudar a composição e evolução do texto original

Encontrado o texto original, passa-se ao estudo da sua composição para descobrir o seu autor ou autores, as fontes de que se serviram, a evolução que sofreu; distinguir o que lhe é anterior e foi recebido da tradição, o que é original e o que lhe foi acrescentado pelas traduções e redacções posteriores. Este estudo da critica literária é o mais extenso da exegese e supõe grandes conhecimentos das línguas em que os livros sagrados foram escritos.

Como exemplo deste estudo podemos referir o texto da instituição da Ceia, de Marcos (Mc 14,22-23), em paralelo com o texto de Paulo na sua primeira carta aos Coríntios (1 Cor 11,23-24). Segundo a crítica literária, o texto de Marcos, sendo posterior no tempo, conservou a versão mais antiga, e, portanto mais próxima das palavras pronunciadas por Cristo; enquanto que o de Paulo, sendo escrito primeiro, é um texto mais condicionado pela liturgia das comunidades e, portanto, apresenta-se com uma formulação mais distante do original de Cristo.

3. Comparar o texto com os lugares paralelos dos Sinópticos

Os três primeiros Evangelhos - Mateus, Marcos e Lucas - descrevem os factos de forma muito semelhante, de tal maneira que, colocados os seus textos em três colunas paralelas, podemos lê-los ao mesmo tempo. Daí o seu nome de sinópticos" que vem da palavra grega sinopsis que quer dizer visão de conjunto.

Qualquer texto destes três Evangelhos deve ser estudado tendo em conta os textos paralelos dos outros dois, porque uns iluminam e completam os outros. Para exemplo podemos citar o texto do Pai-Nosso. Em Mateus (Mt 6,9-13) vem inserido no sermão da montanha. Este não é o seu verdadeiro contexto, o que se pode comprovar lendo o paralelo em Lucas (Lc 11,1-4) que o coloca junto de Betânia, perto do Monte das Oliveiras e inserido na parábola do bom samaritano.

De facto, examinando as diversas petições desta oração do Pai-Nosso, verifica-se que ela corresponde aos grandes desejos de Cristo manifestados durante a sua vida terrena e sobretudo nos últimos dias da Sua vida e mais concretamente nas orações do Jardim das Oliveiras.

Por isso, o estudo crítico desta passagem levou os exegetas a concluir que o Pai-Nosso, mais do que uma oração nova inventada por Jesus para ensinar aos seus apóstolos, é a expressão literária, estruturada pelo evangelista, da oração ou orações que frequentemente Jesus tinha nos seus lábios, especialmente os últimos dias da sua vida terrena. Mateus, preocupado com a síntese e para facilitar a memorização, recolhe tudo numa oração. única e coloca-a na secção dos discursos do Senhor (Mt 5,7).

4. Inserir o texto no seu contexto

Todo o texto tem o seu contexto próprio. Mas nem sempre, no evangelho, o texto vem inserido no seu verdadeiro contexto. As vezes, por motivos de estruturação sintética e doutrinal, o texto é deslocado do seu verdadeiro contexto e inserido noutro que não ajuda, mas até dificulta a sua leitura e interpretação, como já vimos no caso do Pai-Nosso em Mateus.

O normal, porém, é que o texto venha no seu verdadeiro lugar e, por conseguinte, no seu contexto. São os casos das parábolas da ovelha e da dracma perdidas, e a do filho pródigo, que têm a sua explicação no contexto imediatamente anterior: a murmuração dos escribas e fariseus por Jesus acolher os pecadores e comer com eles (Lc 15,1-2); ou também o relato da expulsão dos vendilhões do templo, em Marcos, intercalado na história da figueira estéril que lhe serve de explicação e interpretação (Mc 11,12-26).

E como estes há muitos outros casos. Por isso, na exegese de qualquer texto evangélico, devemos procurar sempre o seu verdadeiro contexto.

5. Ver a relação que o texto pode ter com o Antigo Testamento

A Sagrada Escritura não é uma manta de retalhos, sem ordem e unidade entre si. Ela tem uma unidade e há uma progressividade no seu conteúdo. A unidade e a influência do Antigo Testamento no Novo, e vice-versa, é tal que não se podem ler e interpretar um sem o outro: «Deus, inspirador e autor dos livros de ambos os Testamentos, dispôs sabiamente que o Novo Testamento estivesse escondido no Antigo e o Antigo se tornasse claro no Novo.» (DV 16).

De facto, um estudo atento do Novo Testamento faz-nos descobrir, para além das inúmeras citações directas e de uma infinidade de alusões mais ou menos veladas, uma corrente de pensamento e uma estrutura literária que tornam o Novo Testamento uma espécie de interpretação do Antigo à luz dos novos acontecimentos.

Por isso, se queremos interpretar algum texto dos Evangelhos, não basta inseri-lo no seu contexto e ler os lugares paralelos que vêm nos outros evangelhos ou em todo o Novo Testamento; mas é necessário também ver as relações possíveis desse texto com o Antigo Testamento e, mais do que com um texto ou textos concretos, é preciso ter em conta o conjunto da Revelação do Antigo Testamento como promessa e preparação do Novo.

6. Situar o texto no seu meio

Os Evangelhos são também, e muito fruto do meio ambiente cultural e religioso em que nasceram. Por isso, o estudo da situação política, social e religiosa do tempo de Jesus e das primeiras comunidades cristãs, ajuda-nos muito na leitura e interpretação dos textos evangélicos. Assim, o conhecimento do "messianismo" nos líderes políticos judeus, durante esta época, projecta luz para entender a ideia messiânica apresentada pelos textos evangélicos; a leitura dos escritos rabínicos orienta-nos na interpretação de muitas palavras e atitudes de Cristo para entendermos certos milagres e diálogos de Cristo com o demónio e os espíritos maus é preciso conhecer a maneira de pensar daquele tempo e sobretudo o mundo religioso do paganismo do tempo dos Evangelhos; muitas parábolas e metáforas de Cristo adquirem todo o seu brilho e riqueza ao descobrirmos o contexto vital em que foram pronunciadas.

7. Atender ao autor e ao plano por ele concebido para o seu Evangelho

São Lucas começa assim o seu Evangelho: Visto que muitos empreenderam compor uma narração dos factos que entre nós se consumaram, como no-los transmitiram os que desde o princípio foram testemunhas oculares e se tornaram servidores da Palavra, resolvi eu também, depois de tudo ter investigado cuidadosamente desde a origem, expô-los a ti por escrito e pela sua ordem, caríssimo Teófilo, a fim de que reconheças a solidez da doutrina em que foste instruído.» (Lc 1,1-4)

Este prólogo diz-nos:

- primeiro, que o evangelho não foi criado pelo evangelista, mas que ele apenas transmite o que recebeu daqueles «que desde o princípio foram testemunhas oculares e se tornaram servidores da Palavra»;

- segundo, que eles, os evangelistas, não são simples repetidores, mas escrevem só «depois de tudo ter investigado cuidadosamente desde a origem» ou seja, depois de muito estudo, meditação e reflexão pessoal sobre os acontecimentos que receberam da tradição; e

- terceiro, que cada evangelista tem o seu plano ou finalidade e ordena os materiais que encontrou segundo esse plano estruturado por ele.

Por isso, cada evangelista, em relação ao Evangelho de Cristo transmitido pela tradição oral e escrita, seleccionou, adaptou, ordenou e completou segundo a sua formação teológica e os objectivos que se propôs atingir. Assim,

São Mateus apresenta-nos o seu evangelho como um drama: Jesus. é o Messias anunciado pelos profetas, enviado aos judeus para os salvar, mas estes não O aceitam; então Ele dirige-se para os pagãos e faz deles o novo Povo de Deus, a Igreja.

São Marcos apresenta-nos uma caminhada de fé que o povo vai fazendo até descobrir que Jesus é o Filho de Deus, que veio para salvar mas através da sua Paixão-Morte e Ressurreição.

São Lucas faz girar todo o seu evangelho em torno a uma viagem de Cristo da Galileia a Jerusalém, apresentando Cristo como o Salvador de todos os povos, a começar pelos judeus. Para

São João, Cristo é o Verbo que, sendo igual a Deus, se fez homem dando aos homens o poder de se tornarem filhos de Deus e depois voltou para junto do Pai, onde nos espera para ser tudo em todos.

8. Ter presente a comunidade a quem o Evangelho se dirige

Cada Evangelho tem um destinatário muito concreto: a comunidade que o viu nascer e que foi, em parte, o seu autor. De facto, os Evangelhos são também e sobretudo a expressão da fé duma comunidade: como ela viu e viveu o acontecimento Jesus de Nazaré. Por isso, o conhecimento da comunidade, da sua vida, do seu ambiente socioreligioso, das suas preocupações missionárias, catequéticas e litúrgicas, etc., projectará muita luz sobre os textos evangélicos e ajudará a compreender a sua leitura e interpretação.

Assim São Mateus, porque escreve para cristãos vindos do judaísmo, recorre mais ao Cristo da fé, preparado e anunciado já no Antigo Testamento; São Marcos e São Lucas, porque escrevem para cristãos convertidos do paganismo, insistem mais no Cristo da História, Jesus de Nazaré, homem acreditado por Deus como Filho de Deus, com milagres o prodígios (Act 2,22); São João, como escreve para uma comunidade helénica, influenciada pelos mistérios da filosofia religiosa grega, apresenta Cristo como o grande mistério, o Verbo de Deus feito homem.

9. Determinar o género literário concreto em que foi escrito

O género "evangélico' já é um género literário original e muito concreto, e como tal tem de ser lido. Mas, para além e dentro desse mesmo género, há uma gama diversificada de formas literárias que é preciso distinguir na hora de lermos e interpretarmos as diversas passagens evangélicas.

De um modo global, podemos distinguir nos Evangelhos:

»ditos proféticos e sapienciais;

»textos jurídicos ou legais;

»comparações, parábolas, alegorias e imagens;

»kerygmas ou anúncios breves do Reino;

»relatos biográficos sobre a missão de Cristo;

»diálogos;

»controvérsias;

»gestos e acções proféticas;

»relatos de milagres e aparições;

»textos escatológicos e poéticos...

Ora, cada uma destas formas literárias tem o seu especial interesse e deve ser lida duma maneira diferente. Não é a mesma coisa o relato dum milagre e uma parábola; um texto escatológico e um poema; uma sentença e uma alegoria.

______________________________________

método simples para ler e meditar um texto bíblico

1. Criar um ambiente calmo e recolhido, com silêncio ou música de fundo.

2. Ter uma atitude de fé e um espírito de oração.

2. Ler uma primeira vez, atendendo ao sentido geral do texto.

3. Fechar o livro e tentar lembrar aquilo que nos ficou desta primeira leitura.

4. Voltar a ler, com especial atenção a estes aspectos:

* Que personagens intervêm no texto.

* Qual a sua situação: pessoal, familiar, social e religiosa.

* Quais as suas palavras e atitudes mais significativas.

* Que muda nelas depois do encontro com Deus/Cristo.

* Qual a imagem de Deus/Cristo que o texto me revela.

* Que lições tiro de tudo isto para a minha vida.

5. Tempo de reflexão para concretizar bem o ponto 3, relendo o texto as vezes que for preciso.

6. Partilhar em família ou em grupo, se possível.

7. Rezar: oração espontânea, ou outras.

 

 
Página Principal | Capuchinhos em Portugal | Contactos | Ficha Técnica | Sugestões

© 2005 Ordem dos Frades Menores Capuchinhos (Portugal)