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Introdução a S. Lucas

 

 

Introdução a S. Lucas

 

Lucas, o evangelista «dos factos

que entre nós se consumaram »

 

(proposta para fim-de-semana, dia completo, estudo privado)

 

 

Com base nos 4 primeiros versículos do Evangelho de São Lucas

(o Prólogo literário), podemos reconstituir o processo como nasceu o

livro e apresentar as suas principais características. Ao mesmo tempo, encontramos o seu jeito de fazer catequese, ou os vários tempos e

exigências de leitura dum sinal de Deus na nossa História, que bem

pode servir de modelo à nossa pedagogia catequética, evangelizadora

e apostólica no Mundo, ao longo deste ano Litúrgico. 

 

 

Eis os 4 versículos, na tradução litúrgica do Evangelho do 3º Domingo do Tempo Comum (a celebrar a 21 de Janeiro de 2007):

 

1 Muitos tomaram a iniciativa de coordenar a exposição dos factos que se realizaram entre nós,

2 conforme nos transmitiram os que foram, desde o início, testemunhas oculares e se tornaram servidores da palavra do Evangelho.

3 Por isso, eu resolvi também escrever-tos por ordem, excelentíssimo Teófilo, depois de tudo haver investigado cuidadosamente, desde a origem.

4 E assim poderás verificar a segurança da doutrina em que foste instruído.

 

Sigamos o seu roteiro, e vamos à descoberta deste Evangelho.

 

Versículo 1 » Há um FACTO ou acontecimento, que é o objecto da sua obra: o facto histórico Jesus de Nazaré. Este facto é desdobrado em muitos outros que formam o conjunto da sua presença física de pelo menos 33 anos entre nós. Mais do que o nascimento de Jesus e a indicação cronológica precisa desse facto, a S. Lucas interessa-lhe situar na História local e universal o início da sua obra redentora com a pregação, os milagres, a paixão, morte e ressurreição. Daí a frase genérica «Por aqueles dias…» com que se refere ao seu nascimento, em contraste com a abundância de pormenores com que nos apresenta o início da sua vida pública (Lc 3,1-2).

 

S. Lucas organizou estes factos unificando-os numa referência marcante à cidade de Jerusalém, onde o seu Evangelho começa e termina. A partir desta ideia, podemos fazer mais ou menos o seguinte

 

ESQUEMA DO EVANGELHO DE S. LUCAS:

 

Prólogo literário (1,1-4)

 

Prólogo Teológico (1,5-4,3)

a) Evangelho da Infância: 1,5-2,52

b) Preparação da actividade pública: 3,1–4,13

 

Começa e termina no Templo de Jerusalém, com o anúncio a Zacarias e a última tentação de Jesus. As figuras de João Baptista e de Jesus são introdução apresentadas com base num esquema comum paralelo com a anunciação, o nascimento e a preparação da actividade pública. Com dois encontros: das mães, na visitação; dos filhos, no Baptismo de Jesus.

 

PARTE: Missão de Jesus na Galileia (4,14-9,50)

 

Apresentação e rejeição: 4,14-30

1ª secção: 4,31-6,11

2ª secção: 6,12-7,52

3ª secção: 8,1-9,50

 

No episódio na Sinagoga de Nazaré, sintetiza-se toda esta parte: Jesus anuncia a Salvação que vem trazer a todos, especialmente aos mais pobres e oprimidos, concretiza-o por obras (e milagres) e palavras (e parábolas); dá-se a rejeição por parte de alguns e a distinção entre a multidão e os discípulos, dentre os quais vão ser eleitos e enviados em missão os Doze Apóstolos. Pedro vai confessar Jesus como «o Messias de Deus» e o Pai proclamá-lo «seu Filho dilecto» (Transfiguração) enquanto Jesus anuncia, por duas vezes, a sua morte.

 

2ª PARTE: Missão de Jesus no caminho para Jerusalém (9,51-19,28)

 

Introdução: 9,51

1ª etapa: 9, 52-10, 37

2ª etapa: 10, 38-13, 21

3ª etapa: 13. 22-14, 24

4ª etapa: 14, 25-17,10

5ª etapa: 17,11-18,30

6ª etapa: 18, 31-19, 28

 

Esta parte é a mais original de Lucas, pela forma como organiza os materiais na sequência de uma caminhada desde a Galileia até Jerusalém, que podemos resumir nas palavras de Jesus: «Hoje, amanhã e depois, devo seguir o meu caminho, porque não se admite que um profeta pereça fora de Jerusalém» (13,33). Nesta parte, a palavra predomina sobre os milagres. Jesus dirige-se sempre a Israel, interpela severamente os fariseus e os doutores da Lei, e exorta o povo à conversão; sobretudo, ocupa-se dos discípulos, preparando-os para o tempo depois da Sua partida. A partir de 18,15 o relato aproxima-se de Mt e Mc, embora acrescente o episódio exclusivo de Zaqueu e termine com a parábola das minas, que prepara a rejeição de Jerusalém ao rei que lhe vinha trazer a paz.

 

3ª PARTE: Missão de Jesus em Jerusalém. Meta final (19; 29-24,35)

 

Introdução: Entrada de Jesus na cidade, expulsão dos vendilhões e ensinamentos: 19, 29-48

1ª secção: o ensino no Templo: 20-21

2ª secção: o relato da Paixão: 22-23

3ª secção: os relatos da Páscoa: 24,1-49

 

CONCLUSÃO: 1º relato da Ascensão: 24,50-53

 

O princípio do caminho de Jesus para Jerusalém tinha sido marcado por uma decisão firme: «Como estavam a chegar os dias de ser levado deste mundo, Jesus dirigiu-se resolutamente para Jerusalém» (9,51). Agora encontrava-se na cidade santa, que no drama da Paixão segundo S. Lucas personifica toda a nação de Israel. O que lhe diz respeito «chega ao seu termo» (22,37), e Jesus vai cumprir definitivamente a salvação prometida. Vão crucificá-lo e sepultá-lo fora dos muros, mas, uma vez ressuscitado, é dentro da cidade que Ele se manifesta. Por isso, no Evangelho de S. Lucas, os «dois homens de trajes resplandecentes» não mandam as mulheres ir dizer aos discípulos que o Mestre os precederia a caminho da Galileia. Compare-se Lc 24, 6-7 com Mt 28,6-7 e Mc 16,6-7. O Evangelho conclui com um 1º relato da Ascensão, que há-de ser completado no outro volume da obra de S. Lucas: os Actos dos Apóstolos (Act 4,11). Volume que, de resto, começa onde este termina: em Jerusalém, donde os Apóstolos, iniciados nos Mistérios do Reino (8,10), partem para levar a Boa Nova ao Mundo inteiro (Act 1,8).

 

 

Versículo 2 » Os factos que São Lucas coordena e expõe no seu Evangelho, depois da ressurreição de Jesus foram transmitidos de boca em boca por aqueles que primeiro tinham sido testemunhas oculares de Jesus desde o baptismo de João até à Ascensão (Act 1,21-22) e depois se tornaram «servidores da palavra do Evangelho». Nasceu, assim, uma TRADIÇÃO ORAL ininterrupta e por isso com garantia de fidelidade, embora contada em vários registos ou sensibilidades segundo as evocações feitas por cada testemunha, os problemas do meio em que era feito o anúncio e a caminhada que os convertidos faziam em comunidade de amor, de oração, de Palavra e de testemunho (Act 2,41-47; 4,32-35).

 

A partir desta tradição oral, foi nascendo uma tradição escrita, constituída por várias colecções de palavras de Jesus, milagres, parábolas, etc.

 

 

Versículo 3 » Antes que essas testemunhas da primeira hora desaparecessem, o Espírito Santo moveu alguns dentre os seguidores de Jesus para fixarem essa tradição oral POR ESCRITO. Curiosamente, foi São Paulo, que não tinha sido testemunha ocular de Jesus, quem primeiro escreveu sobre Ele. Nas suas Cartas, entre os anos 51 e 63, foi transmitindo o Evangelho que tinha recebido dos outros Apóstolos. Assim, é dele o 1º relato da Eucaristia (1 Cor 11,23-25) e a 1ª referência a Nossa Senhora (Gl 4,4).

 

O mesmo fizeram Mateus e João (apóstolos) e Marcos e Lucas (apenas discípulos de Pedro e de Paulo, respectivamente). Mas sem que os seus autores fossem dispensados de investigar as várias fontes escritas e tradições orais existentes, compará-las, fazerem uma síntese doutrinar e uma organização dos materiais, conforme o próprio estilo e capacidade e utilizando uma determinada pedagogia em função da comunidade a que mais directamente se dirigiam. No caso do EVANGELHO DE S. LUCAS,

 

a) o Autor é talvez natural de Antioquia, a cidade onde pela primeira vez, os discípulos começaram a ser tratados pelo nome de «cristãos» (Act 11,26) e em cuja sinagoga Paulo deixou os judeus e se voltou para os pagãos (Act 13,46). Lucas era de ascendência pagã (ou helenista?) e, segundo uma tradição que vem do séc. II o «caríssimo médico» de quem S. Paulo manda saudações na carta aos Colossenses (4,14) e que foi seu companheiro. Vindo com Paulo desde Tróade até Filipos, onde permaneceu entre os anos 50 e 53, juntou-se depois novamente a ele em Mileto para o acompanhar até Cesareia, seguindo com ele para Roma. No livro dos Actos, de que também é autor, emprega o plural “nós” ao relatar essas viagens. Paulo refere­se também a ele na carta a Filémon v. 23 e na 2ª a Timóteo 4,11. Lucas tinha recebido uma educação que lhe permitiu escrever na língua grega comum, ou koiné mais correctamente do que os outros evangelistas.

 

Segundo as palavras de S. Paulo, teria sido médico. Já parece bastante menos provável que tenha sido pintor e autor do 1º quadro de Nossa Senhora, uma de cujas cópias se conserva na Basílica de Santa Maria Maior, em Roma, venerada sob a invocação de Salus Populi Romani (Salvação do Povo Romano). Seja isso verdade ou não, S. Lucas é de facto o patrono dos médicos, das academias de arte e dos pintores.

 

Uma tradição com certo fundamento afirma que S. Lucas pregou na Grécia, onde foi o primeiro bispo de Tebas. Os mais antigos documentos lembram que padeceu o martírio na Beócia, sob o imperador Nero. O escritor Hipólito diz saber que S. Lucas morreu dependurado de uma oliveira.

 

b) Que fontes utilizou? Segundo a crítica textual, Lucas não depende de Mateus. Mas conheceu o Evangelho de Marcos, o primeiro a fixar um quadro geográfico e cronológico à vida de Jesus, com o género literário “evangelho”. E também conheceu uma recolha de lógia (plural do grego loguion, que significa palavras, sentenças), usada igualmente por Mateus e Marcos, o que explica as muitas coincidências destes 3 evangelistas.

 

Mateus e Lucas conheceram ainda outra colecção. Com o material aí recolhido, formou Lucas a longa secção de 9,51–18,14 cheia de ditos e episódios totalmente ausentes em Marcos e só parcialmente usados por Mateus. Dominada pela perspectiva da Paixão, aquela colecção inserida por S. Lucas no esquema evangélico de Marcos transforma o caminho para Jerusalém em caminhada para a morte (ver 9,51; 13,22; 17,11), reforçando a unidade central do seu Evangelho.

 

S. Lucas terá tido outras fontes autónomas e exclusivas: talvez Pedro e outros apóstolos, a quem Paulo o poderia ter apresentado durante os dois anos de permanência em Cesareia; talvez alguma das mulheres mencionadas no seu Evangelho, incluindo a Mãe de Jesus. Como resultado da sua cuidadosa investigação desde a origem, deixou-nos um Evangelho cheio de grande originalidade: 544 dos 1151 versículos e 18 das 24 parábolas são exclusivos seus. Um grande elogio para qualquer escritor, investigador, historiador ou jornalista!

 

c) Para quem escreveu? Não apenas as fontes, mas também os destinatários explicam a razão de ser dos materiais utilizados por um evangelista. Ora, S. Lucas dedica o seu Evangelho, bem como o livro dos Actos, a um tal «excelentíssimo Teófilo» (Lc 1,3; Act 1,1). O nome é grego, e significa “amigo de Deus”. O título excelentíssimo também é atribuído aos magistrados romanos Félix e Festo. Seria Teófilo um personagem de certa posição social convertido ao cristianismo? Ou será simplesmente um nome simbólico?

 

Seja como for, Lucas escreveu o seu Evangelho para cristãos gentios, quer dizer, antigos pagãos convertidos ao cristianismo. Não se preocupa com a relação entre o cristianismo e o judaísmo. Para ele a ruptura com o judaísmo é facto consumado. Por isso omite alguns temas ou referências, específicas dos judeus, como as tradições dos antigos (Mc 7,1-23), o regresso de Elias (Mc 9,11-13), as discussões sobre a Lei (Mt 5,20-38; 15,1-20; 23,15-22).

 

Por outro lado, falando da ressurreição de Jesus, que os gregos tinham dificuldade em aceitar, diz: «o Vivente» (24,5); substitui os nomes de Cristo e Messias, por «Salvador» (1, 69; 2, 11,30), chama-lhe o «único Senhor», pois os imperadores arrogavam-se o título de “senhor”; não diz que Jesus se “transfigurou” (metamorfose, em grego), mas que «o aspecto do seu rosto modificou-se» (9,29), para evitar confusões com as inúmeras histórias de metamorfoses de deuses gregos. Também se vê na necessidade de explicar a geografia da Palestina (1,26; 2,4; 4,31; 8,26; 23,51; 24,13) e certos usos judaicos (1,9; 2,23­-24.41-421 22,1.7).

 

Daqui resultam igualmente algumas características do seu Evangelho, como veremos a propósito do versículo 4.

 

d) Em que data foi escrito este Evangelho? É impossível afirmá-lo com precisão. Para fixar a data da sua composição, costuma-se referir o lugar que nele ocupa o relato da destruição de Jerusalém (19, 43-44; 21,20-24; 23,28-31). Ao contrário de Mc e Mt, que falam dela numa perspectiva escatológica (do fim dos tempos), Lc parece ter conhecido a queda e ruína da cidade sob as legiões de Tito, no ano 70. Sendo assim, o Evangelho teria sido escrito depois desta data; segundo a opinião hoje mais comum, entre os anos 80 e 90.

 

 

Versículo 4 » Todo este processo, referido no Prólogo, vai culminar na DOUTRINA apresentada pelo evangelista. Doutrina que tem este objectivo: tornar a fé do leitor da era pós-apostólica bem sólida, ao fundamentá-la sobre os alicerces da primeira geração cristã contemporânea dos Apóstolos de Jesus. E, ao mesmo tempo, esta preocupação pedagógica: quais os elementos dessa doutrina que devem ser mais destacados e de que maneira devem ser expostos aos cristãos vindos do paganismo, de modo que o Evangelho de Jesus seja para eles o anúncio de uma grande alegria (ver 2,10)?

 

Também este elemento (além das fontes e dos destinatários) determina as características dum Evangelho. Em concreto, são estas as características de S. Lucas:

 

1. É o evangelista da História da Salvação, no conjunto do Evangelho e dos Actos. Lemos em 16,16: «A Lei e os Profeta subsistiram até João. A partir de então é anunciado o Reino de Deus, e cada qual esforça-se por entrar nele.» Com base neste texto, têm-se distinguido os três momentos da História da Salvação:

 

a) O tempo da Promessa (o AT «até João»), cumprido no «Hoje» da pregação em Nazaré (4,21). Cristo vem deste povo, tornando-se princípio de uma nova humanidade (3,23-38), e em nome desse povo faz uma nova quarentena para vencer onde o outro foi vencido (4,1-13).

 

b) O tempo de Jesus (Evangelho), em três etapas precedidas dos relatos da infância e do tempo de preparação. Com centro geográfico em Jerusalém, onde Jesus realiza o mistério pascal. Mistério anunciado na Galileia e ansiosamente desejado no caminho para Jerusalém. Mistério que, segundo S. Lucas, compreende todos estes momentos: concepção virginal (=filiação divina), Baptismo, Transfiguração (mas sem usar esta palavra), morte, ressurreição, Ascensão, Pentecostes, vida na Igreja, regresso no fim dos tempos. E assim como Jerusalém é a “capital”, Jesus é o centro da História da Salvação, que nele se realiza e com Ele se prolonga na Igreja. Vindo como Messias do seu Povo, foi rejeitado por este, que ansiava a restauração do reino de Israel. Mas a sua missão não falhou, pois continua na acção da Igreja.

 

c) O tempo da Igreja (Actos), em que os discípulos de Jesus devem ser testemunhas dele «em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo» (Act 1,8) e a Comunidade dos redimidos vive e anuncia a vida do Mestre, aguardando, em esperança activa, o seu regresso. Repare-se como Jerusalém é, mais uma vez, ponto de partida para esta última fase da História da Salvação, que há-de culminar na «nova Jerusalém» celeste (Ap 21,2).

 

É esta a primeira e mais fundamental característica da obra de S. Lucas. Por isso E. Lohse lhe chamou o “teólogo da História da Salvação”. Gosta de inserir cada facto nesse quadro mais amplo e de sublinhar que os principais acontecimentos obedecem a um desígnio superior e segundo um plano salvífico de Deus para toda a Humanidade.

 

Deste modo, Lucas não é o investigador ou historiador “frio” como nos podia parecer da leitura do seu Prólogo. Ele é o crente. E por isso analisa o acontecimento Jesus com a sua fé, dando-lhe uma interpretação pessoal para além da História. Enquanto crente e “catequista”, não se prende tanto com a cronologia ou a topografia dos actos e palavras de Jesus, mas com o seu significado; a sua maior preocupação não é garantir a exactidão material dos factos, mas proclamar a História da Salvação manifestada na história de Jesus.

 

Para isso tenta ler os acontecimentos. E quer fazê-lo à luz da tradição da Igreja apostólica. Neste aspecto, S. Lucas é o mais próximo da Igreja pós-Vaticano II e da sensibilidade dos cristãos no Mundo de hoje. Por isso, com ele e no “seu” Ano, devemos tentar fazer a leitura dos sinais do nosso Mundo e da nossa História (GS, 4).

 

2. O Jesus do seu Evangelho é o Salvador Universal. Aquele Jesus que, ao nascer em Belém, é anunciado como «Salvador», em Lucas não é apenas o Messias Senhor prometido a Israel, mas o Salvador de todos os homens (2,11), pois vem como Salvação que Deus oferece a todos os povos, «Luz para iluminar as nações» (2,31-32), «e toda a criatura verá a Salvação de Deus» (3,6). O mesmo Jesus que, «ao iniciar o seu ministério, tinha cerca de trinta anos. Supunha-se que era filho de José; [...], filho de Adão, filho de Deus» (3,23.38), tem uma função cósmica de Homem novo no renascimento de uma nova Humanidade. A sua paz é para todos os homens que Deus ama (2,14).

 

A missão última confiada aos Apóstolos, foi «que havia de ser anunciada, em seu nome, a conversão para o perdão dos pecados a todos os povos, começando por Jerusalém» (24,47). E o livro dos Actos termina com Paulo em Roma, centro do mundo romano e ponto de cruzamento dos povos; em residência fixa e vigiada, mas «onde recebia todos os que iam procurá-lo, anunciando o Reino de Deus e ensinando o que diz respeito ao Senhor Jesus Cristo, com o maior desas­sombro e sem impedimento» (Act 28,30-31).

 

Nenhum Evangelho como este ultrapassa as fronteiras de Israel ou mesmo da instituição – seja ela religiosa ou política – para ir ao encontro do homem, proclamando «que Deus não faz acepção de pessoas, mas que, em qualquer povo, que o teme e põe em prática a justiça, lhe é agradável» (Act 10,34-35); e por isso, «não se deve chamar profano ou impuro a homem algum» (Act 10,28).

 

Lucas parece apostado, até, em mostrar que muitos desses homens têm um coração mais generoso e próximo da Salvação, do que os herdeiros “oficiais” dessa mesma Salvação. Vários exclusivos do seu Evangelho no-lo documentam, como a parábola do bom samaritano (10,30-37) e o episódio dos dez leprosos curados, dos quais só um samaritano ou “estrangeiro” voltou atrás para agradecer (17,11-19).

 

Por isso, o Jesus de Lucas é sobretudo o Evangelizador (4,18ss) encarregado de uma missão (4,43), enviado pelo Pai para revelar o seu coração aos pecadores (15), dar o Espírito Santo (24,49 e Act 2,33) e realizar o “êxodo” escatológico e definitivo capaz de salvar a Humanidade inteira (9,31). Assim se hão-de entender os textos de Lc 9,51 e 24,50-53 onde se fala da assunção e da “ascensão” de Jesus.

 

Não podemos esquecer, entretanto, que a acção pessoal de Jesus se limita ao povo de Israel. Fala do universalismo da sua mensagem de salvação, mas sempre em anúncio de futuro (2,32; 3,6; 13,29; 14,16-24) ou em prefigurações tipológicas (3,23–38,4,25-27; 7,9; 8,39; 10,1; 17,11-19). O envio dos Apóstolos (9,1-6) ou dos 72 discípulos (10,1-12), em vida, não inclui nenhuma recomendação de tipo mais universalista, apesar de ser sintomático não dizer expressamente como em Mateus: «Não sigais pelo caminho dos gentios, nem entreis em cidade de samaritanos» (Mt 10,5). Mas isso, também o vemos em Marcos.

 

3. Paralelamente S. Lucas é o evangelista da bondade e misericórdia, pois manifesta-nos «o coração misericordioso do nosso Deus» (1,78) através da actuação de Jesus. Dante chamou-lhe “o evangelista da ternura de Deus”. No seu Evangelho, Jesus revela uma atenção privilegiada aos pecadores, aos doentes, aos pobres e aos marginados por uma errada interpretação da Lei ou pelos circunstancialismos socioreligiosos da época: os samaritanos, os cobradores de impostos e até as mulheres. Basta recordar os exclusivos do Evangelho de Lucas:

 

a apresentação de Jesus na Sinagoga de Nazaré, encarnando a figura do servo de Javé preocupado com os mais débeis (4,16-21);

a ressurreição do filho da viúva em Naim (7,11-17);

a pecadora arrependida em casa de Simão (7,36-50);

as três parábolas sobre a misericórdia (cap. 15);

parábola do fariseu e do cobrador de impostos (18,9-14);

conversão de Zaqueu, o cobrador de impostos (19,1-10);

o olhar de Jesus dirigido a Pedro, após as negações (22,61);

o perdão aos verdugos, na cruz (23,34);

o perdão ao bom ladrão (23,42-43).

 

Mas não são menos significativos alguns pormenores introduzidos por Lucas em textos comuns aos outros Evangelistas sinópticos.

 

Por exemplo: a vocação de Mateus (5,27-28). Comparando o seu texto com os paralelos de Mt 9,9 (compreensivelmente mais sóbrio, pois fala de si) e Mc 2,14 verificamos: Só Lucas diz que ele era um «cobrador de impostos» e que «deixou tudo». Ou seja, acentua a disponibilidade e grandeza de cora­ção dum homem considerado mau e pouco limpo nos negócios.

 

Outro exemplo: compare-se a parábola da ovelha perdida em Mt 18,12-14, onde a lição central é o cuidado com as crianças da comunidade, e em Lc 15,4-7, cujo centro é o amor de Deus pelo pecador que se arrepende.

 

4. É um evangelista sensível às questões sociais, concretamente às desigualdades entre ricos e pobres, aos problemas da justiça e da violência, ao espírito de renúncia, de partilha ou de açambarcamento, etc. Há textos de Lucas significativos neste campo:

 

Quando Jesus nasce, é visitado pelos pastores, e não pelos Magos como em Mt: 2,8

Ao apresentarem o Menino Jesus no Templo, José e Maria oferecem o sacrifício dos pobres: «um par de rolas ou duas pombinhas»: 2,24.

Jesus vem libertar os presos e oprimidos e anunciar a Boa Nova aos pobres: 4,18-19.

Nas bem-aventuranças, Lucas chama as realidades pelos seus nomes: pobreza, fome, sofrimento, perseguição... sem o tratamento mais “espiritual” ou “eclesiológico” de Mateus. E, a cada “bem-aventurança”, contrapõe uma violenta “maldição”: 6, 20-26; compare com Mt 5,2-12.

Parábola do rico insensato, que açambarca tesouros e descuida a salvação da sua alma: 12,16-21.

Recolhe uma série de advertências acerca da cobiça e do perigo das riquezas, mais violentas do que nos outros Evangelhos, e uma série de exortações ao espí­rito de abnegação e à confiança na Providência: 12,13-33; 74,9.11.19-31.33; 18,22.

O Mestre não teve onde reclinar a cabeça: 9, 58. Por isso, os que O querem seguir precisam de renunciar a tudo: 5,11.28; 14,33; 18,22. Só Lc inclui a «esposa» entre os bens a que se deve também renunciar. 14,26; 18,29.

Parábola do rico avarento e do pobre, exclusiva de Lc: 16,19-31.

Parábola do juiz iníquo: 18,1-8 (na 1ª parte, relativa à justiça).

Salienta o serviço à comunidade como forma de pobreza. Na parábola do servo, a quem o patrão confia os seus negócios ao partir (Lc 12, 35-48), Lucas substitui «servo» por «administrador» (v. 42) porque, nomeados por Deus, os ministros não são senho­res da comunidade.

  

5. É o evangelista do Espírito Santo. O acontecimento do Pentecostes está no centro da sua obra, entre o fim do evangelho e o princípio dos actos. Mas tanto num livro como noutro deparamos com a acção permanente do Espírito Santo:

 

na concepção de Jesus: 1,35

nas palavras de Isabel a Maria: 1,41

no cântico de Zacarias: 1,67

na ida dos velhos Simeão e Ana ao templo: 1,26-27

no baptismo de Jesus: 3.22

na retirada de Jesus para o deserto: 4,1

no regresso para a Galileia: 4,14

na sinagoga de Nazaré, ao proclamar: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu”: 4,18

quando estremece de alegria sob a acção do Espírito Santo, ao verificar como o Pai se revelava aos humildes: 10,21

 

No capítulo 11,13 do Evangelho encontramos a última referência ao Espírito Santo, a propósito da oração. Mas antes da ascensão promete: «Eu vou mandar sobre vós O que meu Pai prometeu» (24,49). Só não o comunica depois da ressurreição, como faz João, porque a sua obra tem um 2º volume: os Actos dos Apóstolos. Aí Jesus dá, «pelo Espírito Santo, as suas instruções aos Apóstolos» (1,2) e manda-os aguardar «o Prometido do Pai» (1,2.4). E no dia de Pentecostes, «todos ficaram cheios de Espírito Santo» como o seu Mestre (2,4); e, sob o impulso do mesmo Espírito, continuaram a sua acção por todo o mundo.

 

6. É o evangelista de Nossa Senhora. Boa parte daquilo que os Evangelhos nos conservaram sobre Maria de Nazaré, Mãe de Jesus, foi-nos transmitido pela pena de S. Lucas. E não apenas os dados biográficos elementares, com os respectivos enquadramentos históricos e geográficos, mas também os seus sentimentos, a profundidade da sua alma, a generosidade da sua resposta à vocação, a fidelidade na sua missão, o itinerário da sua fé num «faça-se em mim» permanentemente renovado (ver a Encíclica “Redemptoris Mater”, de João Paulo II).

 

Ela está no centro do relato do nascimento e infância de Cristo (1-2) como está no do nascimento e primeiros passos da Igreja (Act 1-2). Sem no entanto ser a figura principal, pois o que acontece com ela deve ser visto sempre à luz e na perspectiva de Cristo.

 

Alguns pormenores: Se compararmos Mateus 1-2 com Lucas 1-2, verificamos: Mateus centra os episódios na figura de José, Lucas centra-os em Maria; quanto à genealogia, acontece o contrário: Mateus vai de Abraão até «José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus» (1, 16 = via descendente), Lucas vai de «Jesus... que se supunha ser «filho de José» (3,23), até «Adão, filho de Deus» (v. 38).

 

A partir dos 12 anos de Jesus, exceptuando duas referências rápidas paralelas nos outros sinópticos (8,19-21 e 11,27-28), nem Lucas nem Mateus nos dizem nada sobre Maria. É a vez de João intervir com dois exclusivos seus (nas bodas de Cana e junto da cruz), para novamente Lucas encerrar essa «peregrinação da fé» (RM, 6) com a presença de Maria entre os Apóstolos no Pentecostes (Act 1,14).

 

7. Um pouco paralelamente ao lugar de Maria, Lucas dá também uma atenção muito especial às mulheres, se o compararmos com os outros Evangelhos. Refiro apenas os exclusivos:

 

Isabel (1,40-45.57-60);

a profetisa Ana (2,36-38);

a viúva de Naim (7,11-17),

a pecadora arrependida (7,36-50);

Maria Madalena, Joana, Susana e muitas outras que acompanhavam Jesus e os Doze e «os serviam com os seus bens» (8,1b-3);

Marta e Maria (10,38-42);

a parábola da mulher que procura a dracma perdida (15, 8-10);

as mulheres que tinham vindo com Ele da Galileia, acompanharam a deposição do seu corpo no sepulcro, prepararam aromas e perfumes e no Domingo de manhã voltaram ao sepulcro, ouviram o primeiro anúncio da ressurreição e o foram comunicar aos apóstolos (23,55-24, 10);

sem esquecermos as mulheres que, no Cenáculo, se encontravam com os Apóstolos e Maria por ocasião do Pentecostes (Act 1,14) e as que aparecem ao longo de todo o livro dos Actos.

 

Infelizmente, o tema continua a ser de grande actualidade. Talvez S. Lucas tenha muito a ensinar-nos durante este Ano litúrgico.

 

 

 

Frei Lopes Morgado

No livro “LUCAS – e paz na Terra!, pp. 17-25

 

 

 

PARA ESTE ANO C ACONSELHAMOS:

 

:: LUCAS – e Paz na Terra!, de Lopes Morgado, donde foi extraído este texto. Contém: o Evangelho dos Domingos e Festas, com comentário bíblico e homilia; textos do Magistério da Igreja sobretudo acerca dos temas sociais da Paz, Justiça, Criação, compromisso dos cristãos leigos com as realidades temporais, etc; muitas orações e celebrações; biografias-testemunhos, etc.

:: Para um estudo do Evangelho de Lucas, o caderno bíblico n.º 1, de A. George: Para ler o Evangelho segundo S. Lucas, Difusora Bíblica.

:: Para estudar o livro dos Actos, os nn. 21 e 35.

:: Sobre o Espírito Santo, o n. 39: O Espírito Santo na Bíblia.

 

 

 
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