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da Palavra à Eucaristia

da Palavra à Eucaristia

Frei Lopes Morgado

“Alimentarmo-nos da Palavra para sermos “servos

da Palavra” no trabalho da evangelização:

tal é, sem dúvida, uma prioridade da Igreja no início do novo milénio. Deixou de existir, mesmo nos países da antiga evangelização, a situação de “sociedade cristã” que, não obstante as muitas fraquezas que sempre caracterizam tudo o que é humano, tinham

explicitamente como ponto de referência os valores evangélicos.»

(João Paulo II, Novo Millenio Ineunte 40)

Depois de ler estas palavras, esperava tudo menos que o Santo Padre viesse a proclamar, primeiro, um Ano do Rosário, e agora, um Ano da Eucaristia. Até porque o ano jubilar teve a Eucaristia «no centro» e foi vivido «como ano intensamente eucarístico» (NMI 11), apoiado por Semanas e Congressos.

Mas, há mais: o papa foi buscar o título e a estrutura da sua Carta Apostólica Mane Nobiscum, Domine (MND = Fica connosco, Senhor) ao episódio dos discípulos de Emaús, exclusivo de Lucas 24,13-35. Ora, com base nisso, a conclusão mais lógica seria ter proclamado um Ano da Palavra e um Sínodo sobre “a Palavra de Deus na vida da Igreja”. Pelas suas palavras transcritas acima, e porque a Palavra precede a Eucaristia: é dela que nos vem a fé (Rm 10,17), necessária para acolher e celebrar o sacramento.

OS DISCÍPULOS DE EMAÚS

De facto, os discípulos de Emaús convidam «o divino Viajante» a entrar em sua casa, reconhecem-no na “fracção do pão” e correm a contá-lo aos Onze, porque Ele, antes, lhes abriu os olhos da fé com a interpretação das Escrituras e lhes aqueceu o coração com o entendimento dos mistérios de Deus.

Diz o papa: «O ícone dos discípulos de Emaús presta-se bem para nortear um ano que verá a Igreja particularmente empenhada na vivência do mistério da sagrada Eucaristia. Ao longo do caminho das nossas dúvidas, inquietações e às vezes amargas desilusões, o divino Viajante continua a fazer-se nosso companheiro para nos introduzir, com a interpretação das Escrituras, na compreensão dos mistérios de Deus.» (MND 2)

Ou seja: sem a luz da fé que nos vem das Escrituras, não podemos compreender o mistério da Eucaristia, nem entrar em comunhão com o Deus-connosco; e, sem isso, não há celebração do sacramento nem vida eucarística. «Quando [=depois de] o encontro se torna pleno – diz o papa –, à luz da Palavra segue-se a luz que brota do “Pão da vida”, pelo qual Cristo cumpre de modo supremo a sua promessa de “estar connosco todos os dias até ao fim do mundo” (Mt 28,20).» (MND 2; ver 12 e 14).

Aliás, o episódio supõe uma experiência de vida eucarística da comunidade lucana, precedida e acompanhada pelo «ensino dos Apóstolos» e de outros «Servidores da Palavra» (Act 2, 42; Lc 1,2) e seguida de solidariedade e partilha e um grande zelo apostólico (Act 4,32-33), de que também fala a Carta do papa (ver MND 24, 27, 28).

Mesmo os objectivos mínimos indicados por João Paulo II para este Ano – «reavivar em todas as comunidades cristãs a celebração da Missa dominical e incrementar a adoração eucarística fora da Missa» (MND 29) – supõem esse trabalho de evangelização, prévio ou simultâneo. Prévio quanto à Missa dominical, pois têm diminuído os que nela participam; e, onde aumentaram, foi nas dioceses que investiram na evangelização, como a de Beja. Simultâneo quanto à adoração eucarística fora da Missa, pois, embora seja devoção muito enraizada entre nós, pode subsistir o problema de saber “que Deus” se adora e “com que intenção”.

Continua a Carta Apostólica: «Na narração dos discípulos de Emaús, o próprio Cristo intervém para mostrar, “começando por Moisés e seguindo por todos os profetas”, como “todas as Escrituras” conduzem ao mistério da sua pessoa. As suas palavras fazem “arder os corações dos discípulos, tiram-nos da obscuridade da tristeza e do desânimo, suscitam neles o desejo de permanecer com Ele: “Fica connosco, Senhor”» (MND 12). Mais uma vez: da Palavra surge a fé que conduz ao mistério.

Diz ainda o Santo Padre: «É significativo que os dois discípulos de Emaús, devidamente preparados pelas palavras do Senhor, O tenham reconhecido, quando estavam à mesa, através do gesto simples da “fracção do pão”. Uma vez [=depois de] iluminadas as inteligências e rescaldados os corações, os sinais falam”. A Eucaristia desenrola-se inteiramente no contexto dinâmico de sinais que encerram uma densa e luminosa mensagem; é através deles que o mistério, de certo modo, se desvenda aos olhos do crente» (MND 14).

Isto é: se só com a evangelização os sinais “falam” [=se entende o mistério que encerram], é preciso evangelizar primeiro.

AS DUAS “MESAS”

«A Eucaristia é luz antes de mais nada porque, em cada Missa, a liturgia da Palavra de Deus precede a liturgia Eucarística, na unidade das duas “mesas” – a da Palavra e a do Pão» (MND 12).

Destaquei as palavras que reforçam, mais uma vez, tudo o que já disse. Mas vale a pena transcrever outro texto do Vaticano II, onde é explícita a referência ás “duas mesas” de que fala o papa:

«A Igreja sempre venerou as divinas Escrituras, como o fez com o próprio Corpo de Cristo, não deixando, sobretudo na Liturgia, de tomar o pão da vida à mesa tanto da Palavra de Deus como do Corpo de Cristo, nem de o distribuir aos fiéis» (DV 21).

Na altura da Dei Verbum (18.XI.1965), a Igreja não venerava nem distribuía de igual modo o pão da Palavra e o pão da Eucaristia. E ainda não o faz, hoje. Daí, a sugestão de João Paulo II: «Passados quarenta anos do Concílio, o Ano da Eucaristia pode constituir uma importante ocasião para as comunidades cristãs fazerem um exame sobre este ponto. De facto, não basta que os textos bíblicos sejam proclamados numa língua compreensível, se tal proclamação não é feita com o cuidado, preparação prévia, escuta devota, silêncio meditativo que são necessários para que a Palavra de Deus toque a vida e a ilumine» (MND 13).

Examinar a Palavra no Ano da Eucaristia? Porque não? Como dizia Paulo, «proclama a palavra, insiste em tempo propício e fora dele…» (2 Tm 4,2).

UM “PLANO PASTORAL”?

Sem dúvida, João Paulo II é o Pastor universal da Igreja católica. Mas, tal ministério não supõe que ele faça um “plano pastoral” para ser executado em simultâneo por todas as Igrejas particulares e em todas as comunidades concretas, sem atender aos vários ritmos e opções pastorais de cada uma. Até porque estas não podem ser enxertadas de surpresa nem caminhar aos saltos.

Sabendo disso, o próprio papa diz: «Não peço para se interromperem os “caminhos” pastorais que as diversas Igrejas estão a fazer»; mas lá vai pedindo «para neles dar relevo à dimensão eucarística própria de toda a vida cristã», convencido de que aos seus irmãos bispos «não será difícil ver como esta iniciativa […] se situe a um nível espiritual tão profundo que não vem dificultar de modo algum os programas pastorais das diversas Igrejas (MND 5).

Mas, de facto, a maioria dos bispos inflectiu na dinâmica do seu plano pastoral para integrar mais esta proposta do papa, que não seria a mais urgente nas suas opções, chegando a escrever Notas ou Cartas Pastorais sobre ela e dispersando a concentração das energias num objectivo.

O papa fala da «dimensão eucarística de toda a vida cristã». Mas, o primeiro passo para a vida cristã, que começa com o baptismo, é o do catecumenato ou evangelização em ordem à fé que leva à conversão confirmada pelo mesmo baptismo. E só depois a vida baptismal é alimentada pela Eucaristia, 2º sacramento de iniciação cristã.

Ora, a maioria dos cristãos baptizados em criança, de adultos não assumiu o seu baptismo numa vida consequente quanto à vivência do Domingo, participando plenamente na Eucaristia mediante a comunhão de Cristo e dos irmãos; e isso, tem de ser feito por uma catequese de adultos e uma formação permanente da fé em grupos que relacionem Bíblia, vida e liturgia.

MAIS LUGAR À PALAVRA

Se, no nosso meio, há um défice de evangelização que condiciona redescobrir a Eucaristia como fonte de luz e vida, aproveitemos a sugestão do Santo Padre para reforçar a “mesa” da Palavra: «o Ano da Eucaristia pode constituir uma importante ocasião para as comunidades cristãs fazerem um exame sobre este ponto.» Eis:

:: Formar Leitores como formamos Ministros da Comunhão, pois «é o próprio Cristo que fala, quando na Igreja se lê a Sagrada Escritura» (MND 13).

:: Na lógica do valor das “duas mesas”, aplicar à Bíblia o que o papa diz da Eucaristia: «torna-se necessário cultivar, tanto na celebração como no culto eucarístico fora dela, uma consciência viva da presença real de Cristo, tendo o cuidado de testemunhá-la com o tom da voz, os gestos, os  movimentos, o comportamento no seu todo. É necessário que todo o modo de tratar a Eucaristia por parte dos ministros e dos fiéis seja caracterizado por um respeito extremo. A presença do sacrário deve constituir como que um pólo de atracção para um número cada vez maior de almas enamoradas» (nº 18). Por exemplo:

dar uma unidade visível (na arquitectura, nos materiais e na decoração) entre a mesa da Palavra (ambão) e a mesa da Eucaristia (altar);

entronizar a Bíblia na zona da reserva e adoração do Santíssimo, de modo a fazer dela um pólo de atracção paralelo ao sacrário, dando-lhe o mesmo respeito que à píxide ou à custódia quando é manipulada ou transportada, e possibilitando aos fiéis ler ou rezar (“comungar”) a Palavra quando vão à igreja fora da Missa, tal como fazem a visita ao Santíssimo sacramento e a “comunhão espiritual”.

:: Preparar bem a homilia, «destinada a ilustrar a Palavra de Deus e actualizá-la na vida cristã» (MD 13).

:: Criar Escolas Bíblicas e grupos bíblicos, com a pedagogia da “Lectio divina”.

:: Celebrar o “Dia”, “Semana” ou “Mês da Bíblia” – paroquial, diocesano ou nacional – também com acções públicas abertas ao meio para «testemunhar com mais vigor a presença de Deus no mundo. Não tenhamos medo de falar de Deus e de ostentar sem vergonha os sinais da fé» (MND 26).

:: Fazer, das Horas de adoração eucarística, momentos de evangelização sobre a Eucaristia, com «subsídios de oração baseados sempre na Palavra de Deus» (MND 18).

:: Cultivar o «silêncio», o «respeito extremo» (MND 18) e a «profunda interioridade» (MND 29), como contexto, atitude e condição para escutar e acolher a Palavra, pela fé.

:: Tirar todas as consequências de que, se a Palavra conduz à Eucaristia, esta conduz à Missão: «O encontro com Cristo, continuamente aprofundado na intimidade eucarística, suscita na Igreja e em cada cristão a urgência de testemunhar e evangelizar. […] A despedida no final de cada Missa constitui um mandato, que impele o cristão para o dever de propagação do Evangelho e animação cristã da sociedade.» (MND 24).

É significativo que os dois discípulos de Emaús,

devidamente preparados pelas palavras do Senhor,

O tenham reconhecido quando estavam à mesa,

através do gesto simples da “fracção do pão”.

Uma vez iluminadas as inteligências

e abrasados os corações,

os sinais “falam”.

 João Paulo II, Mane Nobiscum, Domine 14)

frei Lopes Morgado

 

 
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