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Porque havia um Ano Santo em Israel?

PORQUE HAVIA UM ANO SANTO EM ISRAEL?

O facto de o Movimento Bíblico

animado pelos Capuchinhos estar a cumprir 50 anos,

e este ser o número 300 da revista, levou-me

a escolher o tema do Jubileu.

Cada 25 anos, os católicos celebram um Ano Santo, ou Ano do Jubileu, com grande significado espiritual e religioso. Ainda há pouco celebrámos um, no ano 2000. Ouvimos, então, falar da “Porta Santa”, da Basílica de Pedro, no Vaticano, que somente é aberta nesse Ano como convite aos peregrinos para entrarem num espírito de conversão; e pudemos ver pela televisão João Paulo II presidir à cerimónia de abertura e encerramento. Muitos participaram em peregrinações e visitas de carácter penitencial, mais ou menos com intenção de lucrar indulgência plenária pelos pecados cometidos…

Uma invenção revolucionária

Mas, onde foram os católicos buscar o costume de celebrar o Ano Santo? Quem o inventou? Qual era o seu sentido?

A Igreja Católica herdou o festejo do Ano Santo do antigo povo de Israel. E porque razão os israelitas tinham um Ano Santo? Porque o Ano Santo foi o instrumento jurídico que eles encontraram para solucionar os problemas sociais, evitar a acumulação de propriedades, impedir o excessivo enriquecimento de uma minoria, restabelecer a igualdade económica, e remediar a pobreza da gente mais humilde.

O sorteio equitativo

Segundo a Bíblia, a primeira coisa que os israelitas fizeram ao chegar à Terra Prometida, foi reparti-la equitativamente. O livro de Josué conta-nos como Deus ordenou que se fizesse um sorteio entre todos (Js 13,6), e como Josué, com os representantes de cada tribo, procedeu à sua distribuição segundo aquilo que tocava a cada um (Js 15-19).

Deste modo, cada tribo, cada grupo, cada clã e cada família recebeu o seu lote de terra, a fim e trabalhar e possuir como sua propriedade. Isso fez com que todos tivessem, desde o princípio, iguais possibilidades económicas, e que durante esta primeira época não houvesse distinção entre ricos e pobres em Israel.

Com o andar do tempo, e apesar do projecto ideado por Deus, o aparecimento de diferenças tornou-se inevitável: as doenças, a seca, as pragas, as diferentes colheitas, permitiram que alguns acumulassem mais bens do que outros; mas, apesar de tudo, as divergências entre eles não chegaram ainda a ser muito acentuadas.

Foi com o aparecimento da monarquia, por volta do ano 1000 a.C., que surgiram as verdadeiras desigualdades. Pouco a pouco, o novo rei foi-se rodeando de funcionários e militares assalariados, que começaram a trabalhar para ele na corte. E desse modo surgiram na sociedade novas classes sociais, desconhecidas até então: generais, soldados, escribas, secretários, conselheiros, sacerdotes, oficiais, e muitos outros personagens vinculados à actividade política do rei (2 Sm 8,15-18), que se foram distanciando dos camponeses.

Entregar os filhos como escravos

Os grandes proprietários rurais também prosperaram com a chegada da monarquia. Construíram para si esplêndidos edifícios, e apareceram casas luxuosas em diversas cidades do país. Mas a vida dos camponeses mais pobres foi-se tornando tremendamente dura. A tal ponto, que muitos pequenos agricultores, para mitigar a sua situação, tiveram que recorrer a empréstimos. Então, os que tinham dinheiro viram aí uma excelente oportunidade para aumentar as suas riquezas, fazendo empréstimos com juros.

A Bíblia descreve-nos a terrível situação daqueles que não podiam pagar as suas dívidas. Uns davam em toca os seus objectos pessoais (Jb 24,3); outros vendiam as terras que possuíam (Ne 5,3); alguns chegavam mesmo a entregar a própria casa onde viviam (Is 5,8); e se o devedor fosse tão pobre que não tinha nada para vender, então devia entregar os seus filhos (2 Rs 4,1), ou vender-se a si próprio como escravo (Dt 15,12).

As injustiças chegaram a tal ponto que, por mais de uma vez, os profetas tiveram de erguer a sua voz para denunciar a atitude dos latifundiários:

Ai de vós que ajuntais casas e mais casas,

e que acrescentais campos e mais campos,

até que não haja mais terreno,

e até que fiqueis os únicos proprietários em todo o país! (Is 5,8)

Tudo isto acentuou grandemente a diferença entre ricos e pobres.

O primeiro Código

Para fazer frente às injustiças sociais que tinham surgido, no séc. IX a.C. os israelitas do norte compilaram um grupo de leis e formaram com elas um código, hoje chamado “O Código da Aliança”, que se encontra no livro do Êxodo (20-23). Nele incluía-se uma série de normas de protecção social para os mais pobres: proibia a usura (Ex 22,24); impedia cobrar como juros os objectos de primeira necessidade (Ex 22,25); fixava em 6 anos o limite máximo de escravidão para pagar uma dívida (Ex 21,1).

Mas o verdadeiramente novo deste código, foi a criação de uma instituição chamada “O Ano Sabático”. Em que consistia? Assim como a semana tinha seis dias, e o sétimo se chamava “sábado”, assim também se devia contar seis anos, e ao sétimo chamar-se “ano sabático”. Durante esse ano devia suspender-se o cultivo da terra. Pois, assim como o homem deve descansar no sétimo dia, também a terra deve descansar no sétimo ano.

O Código exprimia-o assim:

Durante seis anos semearás a tua terra e colherás o seu produto. No sétimo ano, porém, deixá-la-ás em pousio e abandoná-la-ás; os pobres do teu povo comerão, e os animais do campo comerão o que restar. Farás do mesmo modo para a tua vinha, para o teu olival. (Ex 23,10)

Uma terra para todos

Na realidade, suspender de vez em quando o cultivo da terra era um antigo costume ecológico, observada pelos camponeses no oriente para não cansar excessivamente a terra, em épocas em que no eram conhecidos os fertilizantes e em lugares onde o solo não era muito fértil. Mas a originalidade da legislação bíblica estava no sentido religioso e social que foi dado a este costume: o Ano Sabático era para que os pobres do país pudessem entrar em qualquer campo, e comer gratuitamente daquilo que a terra produzisse espontaneamente.

Durante um ano inteiro, pois, o povo de Israel reconhecia que o dono da terra era Deus; que Ele a entregou para que todos as pessoas pudessem desfrutá-la e gozar dos seus bens. Durante um ano, em Israel, ninguém passava fome, e todos voltavam a ser iguais perante a terra, tal como o tinham sido nas suas origens.

Claro que, não obstante as boas intenções desta legislação, a situação dos pobres não mudou nada. O facto de todos poderem comer da terra de todos durante um ano não cancelava as dívidas, nem permitia recuperar os bens dados como juros; e, pior ainda, o Ano Sabático prejudicou muitos camponeses que, ao não poderem trabalhar as suas terras durante esse ano, empobreceram ainda mais.

O segundo Código

Foi por isso que, cem anos mais tarde, no séc. VIII a.C., apareceu outro código legislativo em Israel, que hoje conhecemos como “Código Deuteronomista” por se encontrar dentro do livro do Deuteronómio (12-26). Este corpo legal tentava corrigir as deficiências do anterior, e melhorar de uma boa vez a condição social da gente humilde.

Para isso introduziu-se uma novidade no Ano Sabático. A lei, agora, dizia:

De sete em sete anos, cumprirás a lei do perdão das dívidas. Eis a explicação deste perdão: nenhum credor poderá exigir o empréstimo que tiver feito ao seu próximo. Não exercerá contra o seu próximo e contra o seu irmão violência alguma, quando for anunciada a remissão em honra do Senhor. Ao estrangeiro poderás exigir, mas quanta às dívidas do teu irmão farás a remissão.

Em verdade, não deve haver pobres entre vós, porque o Senhor te abençoará na terra que Ele próprio te há-de dar em herança para a possuíres. (Dt 15,1-4)

Ou seja que, além de permitir a todos os pobres comer da terra durante esse ano, a lei, agora estabelecia um segundo beneficio: o perdão de todas as dívidas cada sete anos. Claro que não se tratava das dívidas contraídas para fazer um negócio, mas das dívidas provocadas por casos de grave necessidade. E a lei tinha a sua lógica: se um israelita que estava endividado, não podia cultivar o seu campo nem colher o fruto durante o Ano Sabático, era justo que também lhe não fosse exigido pagar as suas dívidas. Então, ficavam-lhe automaticamente perdoadas.

Nasce o Ano Santo

Apesar das leis profundamente humanas e inovadoras adoptadas por Israel, a triste realidade foi que muitas vezes não se cumpriam e tornavam-se letra morta. Nem todos punham as suas terras à disposição dos mais pobres no Ano Sabático; e os prestamistas consideravam que sete anos eram pouco tempo para se cobrar uma dívida, pelo que, mesmo depois do Ano Sabático, continuavam a exigir a sua paga.

Perante isto, um grupo de sacerdotes israelitas no século VI a.C. elaborou um terceiro código legal, hoje incluído no livro do Levítico (17-26), actualmente chamado “Código de Santidade”. Este código ordenava criar uma nova instituição que tinha dois nomes: Ano Santo (25,10) ou Ano do Jubileu (25,12). O seu segundo nome derivava da palavra hebraica “yobel”, que significa “perdão, indulto”.

Que era o Ano Santo? Devia-se contar sete anos sabáticos, quer dizer, sete vezes sete anos, obtendo-se o total de quarenta e nove anos. E o ano número cinquenta passava a ser Ano Santo (25,8-19). E que era preciso fazer no Ano Santo? Três coisas:

a) deixar descansar a terra, para que ela alimentasse os mais pobres (como no Ano Sabático; v.11-12);

b) libertar todos os escravos, ainda que não tivessem terminado de pagar a dívida com a sua escravidão (v.10); e

c) o mais incrível e surpreendente: todas as propriedades vendidas durante os quarenta e nove anos anteriores, deviam voltar ao seu antigo dono (v.10).

Desaparece o Ano Santo

O Ano Santo foi, pois, uma ideia extraordinária do povo de Israel para resolver o grave problema da desigualdade económica e as injustiças sociais que feriam a sociedade daquele tempo.

Mas, se o Ano Sabático tinha sido difícil de cumprir, o Ano Santo nunca chegou a ser cumprido. A Bíblia não conta nenhum episódio, em que tal celebração tenha tido lugar. Ficou sobretudo como uma legislação ideal, cheia de boas intenções, mas que os israelitas não se atreveram a praticar. Com o andar dos tempos, a lembrança do Ano Santo foi-se perdendo, caiu numa realidade obsoleta e, finalmente, desapareceu do horizonte social.

Contudo, por volta do ano 538 a.C. aconteceu algo que faria resgatar do esquecimento a memória do Ano Santo. Apareceu um anónimo profeta, cujas palavras se encontram no final do livro de Isaías, anunciando uma boa notícia: Deus estava disposto a celebrar pessoalmente um Ano Santo com o povo de Israel. As suas palavras diziam assim:

O espírito do Senhor Deus está sobre mim,

porque o Senhor me ungiu:

enviou-me para levar a boa nova aos que sofrem,

para curar os desesperados,

para anunciar a libertação aos exilados

e a liberdade aos prisioneiros;

para proclamar um ano de graça do Senhor. (Is 61,1-2).

 

Para entender o sentido destas palavras, há que ter em conta que nesse momento os israelitas se encontravam cativos na Babilónia. Tinham perdido a sua liberdade, os seus bens, as suas terras, as suas famílias – tudo. Viviam escravizados pelo rei babilónico, em condições de pobreza extrema.

O ressurgimento do Ano Santo

No meio destes infelizes apresentou-se o anónimo profeta, e declarou que Deus ia libertá-los do exílio, perdoar-lhes a sua dívida (isto, os seus pecados), devolver-lhes as terras que tinham perdido e entregar-lhes as propriedades usurpadas. Isto é: Deus ia celebrar um Jubileu, um Ano Santo para o seu povo (v. 2).

Como consequência desta celebração, o profeta também anunciava que, a partir deste Ano Santo,

haveria justiça social para todos (v.11);

cada qual teria a sua propriedade e a sua terra (v. 5);

não existiram os pobres, nem os famintos (58,7),

porque todos seriam santos e justos (62, 12), e

viveriam em alegria e em paz (65,18).

Mas, quando efectivamente se produziu a libertação dos israelitas, no ano 538 a.C., e eles puderam regressar à sua pátria para recuperar as suas terras e os seus bens, a reconstrução do país esteve novamente marcada pelo egoísmo. Não houve a justiça social esperada, nem trabalho, nem igualdade económica, nem alegria, nem paz. Novamente a ambição de poder e as ânsias de ter mais à custa dos mais pobres frustraram o projecto sonhado por Deus. E as palavras do profeta não se cumpriram. Ficaram como um malogrado anúncio da parte de Deus.

:: Afinal, Deus também não cumpre as suas promessas?

:: Porque falham tantas propostas de justiça social, de equidade e de igualdade de oportunidades propostas na doutrina social da Igreja e até escritas nos programas de alguns partidos políticos e anunciados por alguns governantes?

O verdadeiro Ano Santo

Quando Jesus chegou ao mundo, a situação não tinha mudado muito. As diferenças sociais, a pobreza, a marginalidade, o desemprego e a angústia dos devedores continuavam a ser dolorosas. Por isso, segundo conta o Evangelho de Lucas, quando Jesus se apresentou pela primeira vez na sinagoga de Nazaré como pregador, pegou no livro de Isaías, abriu-o precisamente na passagem acima referida (onde o profeta anunciava a chegada do Ano Santo para o povo), e leu-o. Ao terminar fez um profundo silêncio, olhou para todos os presentes, e disse: Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura, que acabais de ouvir. (Lc 4,16-21).

Com isto, Jesus quis ensinar às pessoas:

a chegada do Ano Santo, anunciada por aquele anónimo profeta, não se cumpriu no ano 538;

a pessoa ungida por Deus, que devia apresentar-se para inaugurar o Jubileu era, na realidade, o próprio Jesus;

a nova época em que os pobres, os endividados, os submetidos à escravidão, os marginalizados e os feridos pela sociedade seriam socorridos – isto é, o início do verdadeiro Ano Santo – estava a acontecer, nesse momento, na sinagoga de Nazaré.

Mas Jesus esclarece, também, que o Ano Jubilar inaugurado por Ele não dura 365 dias, nem é para ser celebrado cada 50 anos. Que é um tempo permanente, estável e para sempre. Por isso diz que a profecia «cumpriu-se hoje», quer dizer, “começou a partir de hoje”.

Com Jesus Cristo, pois, entrámos num Ano Santo perpétuo, no qual, todos os que cremos n’Ele

assumimos o compromisso de ser solidários com os outros;

nos esforçamos para que ninguém sofra, se sinta angustiado, esteja submetido a nenhu-ma escravidão, nem padeça injustiças;

procuramos viver um “ano interminável” de graça, proposto por Deus.

O Ano Santo que Jesus quer

No ano 1300 da nossa era, o papa Bonifácio VIII decidiu voltar a implantar a prática do Ano Santo na Igreja; e propôs que fosse celebrado cada 100 anos. Mais tarde, em 1343, o papa Clemente VI encurtou o prazo e estabeleceu o Jubileu cada 50 anos (como no Antigo Testamento). Finalmente, Paulo II, em 1470, reduziu o intervalo jubilar a 25 anos, que é a forma em que o celebramos actualmente.

Mas, lamentavelmente, muitos cristãos perderam o verdadeiro sentido do Ano Santo proposto por Jesus:

porque o “periodizaram”: pensam que a mudança radical na vida e no comportamento humano deve fazer-se cada 25 anos, quando Jesus deixou instalado um Ano Santo permanente;

porque o “espiritualizaram”: buscam quase exclusivamente o perdão dos pecados e as indulgências, em vez de assumir o compromisso com os pobres, os marginados e os sem-terra, que era o sentido original dado por Jesus.

porque o “espacializaram”: reduziram-no a visitar uma igreja, um templo ou um lugar sagrado, em vez de visitar os irmãos necessitados, os doentes, os idosos, os presos ou os que sofrem a solidão.

Neste mundo de pessoas com posses e pessoas despojadas, de povos credores e povos endividados, Jesus de Nazaré anuncia que o tempo histórico actual é um tempo com uma força transformadora especial. E que, face à vontade opressora de certos grupos e instituições, existe outra vontade: a vontade de Deus, que se opõe a esta situação injusta. Que Deus está disposto a pôr-lhe fim. E que os cristãos devemos colaborar para que se cumpra a vontade divina.

Ariel Álvarez Valdés,

Sacerdote argentino, biblista,

in Revista BÍBLICA nº 300

 

 
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