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Jesus Cristo desceu aos infernos?

 

 

Jesus Cristo desceu aos infernos?

 

Se alguém nos perguntasse, de repente, se acreditamos que Jesus esteve no inferno, havíamos de responder, sem hesitar, com um rotundo não. Porém, durante muitos anos, chegava o Domingo,

e ao rezar o Credo proclamávamos, com toda a força e convicção, que Jesus Cristo ‘desceu aos infernos’.

Hoje dizemos que ‘desceu à mansão dos mortos’.

Entendíamos, então, aquilo em que acreditávamos?

E hoje, sabemos o queremos dizer?

 

 

Os que assistem à Missa aos Domingos, após escutarem a homilia do sacerdote, participam na recitação do Credo, isto é, recitam em voz alta a lista dos artigos da fé que um católico deve crer para estar unido aos ensinamentos da Igreja. Mas habitualmente fazem-no de um modo mecânico e rotineiro, de tal modo que não prestam grande atenção ao que estão a dizer. E era assim que, no elenco desses dogmas de fé em que dizem acreditar, deslizava um tão estranho como inquietante. É o que afirma: «Creio em Jesus Cristo… que foi crucificado, morto e sepultado; desceu aos infernos; ressuscitou ao terceiro dia; subiu aos Céus.»

 

 

O lugar da desesperança

 

Conta Dante, em A Divina Comédia, que certo dia, ao chegar numa visão à porta de entrada do inferno, viu um grande cartaz com uma inscrição pavorosa que anunciava a quantos ali entrassem: “Os que entrarem aqui, deixem lá fora toda a esperança.”

 

É que realmente, e tal como a Igreja ensina, o inferno é um estado definitivo e, uma vez que alguém entrar nele, nunca mais poderá de lá sair. Jesus Cristo, ao subir aos céus, violou esta lei eterna?

 

E, sendo o inferno o destino dos condenados, isto é, daqueles que durante a sua existência rejeitaram Deus com uma vida de pecado, como é que Jesus lá esteve se, como afirma a carta aos Hebreus (4,15), nunca cometeu nenhum pecado?

 

Além disso, a teologia ensina que o inferno é a ausência total de Deus. Jesus Cristo, sendo Deus, não pôde ter lá ido, porque, ao chegar com o próprio Deus, o inferno ter-se-ia convertido em céu.

 

Então, Jesus Cristo desceu aos infernos, ou não? Temos de responder inevitavelmente que sim, uma vez que se trata de um dogma de fé proposto pela Igreja.

 

Vemos assim como, mais importante que conhecer de memória as verdades da nossa fé, é entender o seu significado profundo.

 

 

As lembranças do Sábado Santo

 

Qualquer cristão sabe que acontecimentos celebramos na Sexta-Feira Santa e no Domingo de Páscoa. Mas muito poucos poderiam explicar qual o facto que a Igreja comemora no Sábado Santo.

 

Saberão que liturgicamente é um dia vazio, no qual não se pode celebrar missas, nem baptismos, nem casamentos. Quando muito, dirão que é um dia de luto pela morte e sepultura de Cristo. E mais nada.

 

E contudo, a Igreja coloca neste dia o dogma da “descida de Cristo aos infernos”.

 

Trata-se de uma verdade esquecida, que não desperta interesse na pregação nem na catequese, a tal ponto que muitos cristãos chegam a desconhecê-la e até a acham estranha. Mas constitui um pilar fundamental da nossa fé. Com ela, a Igreja quer expressar duas realidades que se tornam cardiais para a compreensão de toda a doutrina cristã.

 

 

Quando a terra era plana

 

Comecemos por dizer que “os infernos”, não são “o inferno”. O inferno é, segundo a teologia cristã, o estado em que se encontram os condenados eternamente. Ao passo que “os infernos” era o lugar onde, na antiguidade, o povo de Israel imaginava que iam parar todos os que morriam.

 

De facto, os judeus no Antigo Testamento tinham uma imagem do cosmos muito diferente da nossa. Representavam-no como um disco enorme e plano, circular, rodeado pelas imensas águas do oceano. Estava assente sobre quatro colunas que mergulhavam no abismo.

 

Por cima do espaço encontrava-se o firmamento. Era uma cúpula sólida, sobre a qual se supunha que havia água, e que servia para separá-las das águas de baixo. Desta cúpula pendiam o sol, a lua e as estrelas. Para que chovesse, abriam-se as comportas de cima, e então as águas caíam sobre a terra.

 

O terceiro estrato deste cosmos era o lugar em hebreu chamado sheol, a morada dos mortos, o mundo subterrâneo, colocado debaixo da terra. Para lá iam todos os defuntos, sem excepção.

 

Quando a palavra sheol teve que ser traduzida para o grego, usou-se o vocábulo hades. E mais tarde, ao passar para o latim, traduziu-se por infernus, que significa precisamente isso: “lugar inferior, subterrâneo”. Estas três palavras, pois, indicam a mesma realidade.

 

 

O sheol, morada dos mortos

 

Os hebreus não tinham desenvolvido quase nada da doutrina do mais além. Por isso a Bíblia diz muito pouco sobre o sheol ou “os infernos”.

 

Estava supostamente localizado por baixo da terra (por isso se dizia “descer” ao sheol), e como que envolto em trevas, uma vez que a luz era património exclusivo dos vivos. Ali não se ouvia nenhum som, nem as vozes de ninguém, pois vivia-se no mais absoluto dos silêncios.

 

Quem descesse ao sheol já nunca mais podia regressar. Ali, a essa região sombria e tenebrosa, iam parar todos os humanos que tinham ultrapassado as fronteiras da vida. Bons e maus indistintamente, tinham como iniludível meta final a tenebrosa morada dos mortos.

 

Aos habitantes do sheol, a Bíblia dá-lhes o enigmático nome de refaím (= os impotentes), uma vez que subsistiam ali como que em estado flácido, debilitados, com uma existência vaporosa e sonolenta. Ali não faziam nada, nem pensavam em nada, nem tinham gozo nenhum, nem sabiam o que acontecia na terra, nem podiam louvar a Deus nem ter nenhum contacto com Ele. Eram sombras viventes.

 

 

Certo, mas difícil de acreditar

 

Ora bem, que Jesus, sendo Deus, e tendo o poder e a condição divina, tenha perecido como um simples mortal, e tenha experimentado o sheol, não foi fácil de admitir pelos crentes das várias épocas da História.

 

Já entre os primeiros cristãos havia quem negasse que Jesus tivesse tido um corpo real, autêntico, mortal como o nosso, e se contentavam com defender que o seu corpo era aparente, como uma veste exterior, uma roupagem que cobria a pessoa divina.

 

Os que defendiam esta doutrina herética foram chamados docetas (do verbo latino doceo, que significa parecer, aparentar). Com um corpo aparente, era lógico que Jesus não tinha morrido de verdade. Pelo menos, não como qualquer ser humano.

 

Deste modo, entendiam exaltar ainda mais a figura do Senhor, como sucede actualmente entre os muçulmanos, que consideram Jesus um profeta tão grande, que pensam não poder ter Ele morrido da forma narrada nos Evangelhos. Segundo o Corão, em Sexta-Feira Santa, no meio da confusão, os soldados romanos pegaram, por engano, em Simão Cireneu crucificaram-no, enquanto Jesus se escapava.

 

Compreende-se, pois, que na Igreja não se tenha imposto facilmente a ideia do Cristo humanamente morto.

 

 

Um morto bem morto

 

O perigo era grande, porque se Jesus Cristo não tinha morrido realmente, tão-pouco tinha ressuscitado. E então não se teria realizado a nossa salvação, e estaríamos como antes da sua vinda.

 

Viu-se, assim, a necessidade de exprimir esta crença num dogma, que ficou definido assim: “Creio que Jesus Cristo foi morto e sepultado”. E para que não houvesse dúvida alguma de que a sua morte era real, acrescentou-se: “Desceu aos infernos.”

 

A expressão “desceu aos infernos”, como se compreende, está composta de conceitos que já não são os nossos. Agora que sabemos que a terra não é plana mas redonda, tão-pouco acreditamos que os mortos desçam para nenhum “lugar inferior”. Contudo, a verdade de fé continua em pé. Com ela, só se quer dizer que Jesus morreu “realmente”, que passou pela humilhação de estar morto, separado desta vida, excluído do resto do mundo que continuou a viver.

 

Por isso, quando os católicos confessamos, na nossa fé, que Jesus Cristo descendeu aos infernos, queremos simplesmente dizer que permaneceu no estado real de morte; que chegou ao limite extremo do seu abaixamento; que com ela tinha tocado no fundo.

 

 

O ruído de cadeias partidas

 

Mas havia um segundo aspecto que se queria sublinhar com esta frase: a salvação de todos os homens justos do Antigo Testamento.

 

Com efeito, nos “infernos” ou sheol estavam todos os bons, os justos, os santos, que tinham morrido antes de Cristo. E nenhum deles podia entrar no “céu”, na salvação, antes de Cristo, porque, como diz São Paulo, Ele é o primeiro a ressuscitar dentre os mortos, o primeiro dentre os irmãos, o primeiro em tudo (Cl 1,18). Estavam todos nos “infernos” a aguardar que se realizasse a redenção de Cristo.

 

Quando Este morreu, desceu, pois, à sua procura para lhes dar a boa notícia e levá-los com Ele para o Paraíso. Cristo inaugurou o céu, e atrás dele entraram todos os que antes da sua vinda tinham sido dignos da salvação.

 

As cadeias que, segundo São Pedro no seu discurso de Pentecostes, retiveram a Cristo e a todos os defuntos no sheol (Act 2,24), foram partidas para sempre.

 

 

O que diz a Bíblia

 

O mesmo São Pedro, na sua Primeira Carta, escreve sobre este tema, embora de um modo velado e confuso, quando fala de «Cristo […] morto na carne mas vivificado no espírito. Foi então que foi pregar também aos espíritos cativos» (3,18-19). E mais adiante, acrescenta: «Pois para isto foi o Evangelho também pregado aos mortos; a fim de que, muito embora condenados na sua vida corporal segundo o juízo dos homens, vivam, contudo, em espírito segundo o juízo de Deus» (4,6).

 

São Mateus também alude a esta libertação, entre a morte e a ressurreição de Cristo, quando conta que, mal Jesus expirou, «abriram-se os túmulos e muitos corpos de santos, que estavam mortos, ressuscitaram; e, saindo dos túmulos depois da ressurreição de Jesus, entraram na cidade santa [escatológica, isto é, o céu]» (Mt 27, 52-53).

 

Também João, no Apocalipse, apresenta Jesus Cristo como «aquele que vive. Estive morto; mas, como vês, estou vivo pelos séculos dos séculos e tenho as chaves da Morte e do Abismo» (1,18).

 

 

Na morada dos mortos, a vida

 

A “descida” de Cristo aos infernos tem, pois, uma mensagem imensa. Todos aqueles que tinham vivido antes de Cristo, aos quais o Evangelho nunca havia chegado, que nunca tinham ouvido falar de um Redentor, também puderam salvar-se.

 

Todas as épocas da História foram santificadas, começando por Adão. Por isso hoje, sabendo melhor do que antes quão antiga é a nossa humanidade, esta doutrina tem maiores dimensões.

 

E para os que viemos depois, o dogma afirma que Cristo passou pela porta daquilo que mais nos aterrorizava – a morte, que antes era “os infernos” – e destruiu-o. Todo o medo do mundo estava ligado a isso. Mas agora o sheol está superado. A morte já não é o mesmo que antes, porque a vida está no meio dela.

 

As portas da morte ficaram definitivamente abertas, tanto para os que vêm depois, como para os que morreram antes.

 

 

A lenda de Adão

 

Em Jerusalém, à entrada da Igreja do Santo Sepulcro, há uma gruta chamada “a gruta de Adão”. Os primeiros cristãos, que gostavam de comemorar as verdades da fé de um modo plástico e popular, tinham criado uma lenda acerca dela. Diziam que Adão e Eva tinham vivido ali e nela tinham sido enterrados.

 

Ora bem, esta gruta encontra-se exactamente sob a rocha do Calvário, onde espetaram a cruz em que Jesus foi pregado. Segundo esta lenda, quando Cristo morreu na cruz, o seu sangue, deslizando pelas fendas da rocha quebrada pelo tremor de terra, caiu sobre os restos de Adão, ali sepultado, e banhou os seus ossos.

 

Com isto ensinavam que Adão, representando o primeiro homem que pecou, quem quer que ele tenha sido, também tinha conseguido a salvação. Com ele começava a redenção. Por isso em muitos crucifixos antigos se vê uma caveira aos pés de Cristo: a caveira de Adão, que recebe as primeiras gotas de redenção.

 

 

Dogma envelhecido, mas rico

 

A “descida aos infernos” é uma doutrina de importância fundamental para a compreensão da fé cristã.

 

Tal como a enunciamos hoje, está expressa em categorias obsoletas e já superadas. Apesar disso, conserva fresca a preciosa verdade de que Cristo, morrendo realmente, destruiu a morte antiga. E desde então não há pessoa, seja qual for a época em que tenha vivido, que fique fora da salvação de Cristo, ou seja, sem a possibilidade que Deus oferece a cada um.

 

Perante Cristo ninguém tem privilégios cronológicos. Nem os que nasceram antes, nem os seus contemporâneos, nem os que chegaram depois. Todas as etapas da História, desde que apareceu a chispa de humanidade no homem primitivo há dois milhões de anos, até a última que atravessará o nosso universo, ficaram santificadas.

 

Quando Clodoveu, rei bárbaro dos francos, se converteu ao cristianismo no ano 496, costumava receber do bispo São Remígio o ensinamento catequético. Um dia, enquanto ouvia o relato da prisão e da paixão de Jesus, exclamou com o ímpeto próprio de um recém-convertido: «Ah, Senhor, se eu tivesse estado ali com os meus francos, tê-lo-ia impedido!»

 

Mas a pretensão de Clodoveu é vã. Não faz falta ter nascido na sua época. Sempre estaremos a tempo de lhe prestar ajuda, de o escutar ou de nos comprometermos com a sua causa, assim como estiveram os que pisaram este mundo antes dele.

 

Podemos nascer em qualquer século. A descida de Cristo “aos infernos” santificou todos os homens de todos os tempos.

Ariel Álvarez Valdés,

Sacerdote argentino, biblista,

in Revista Bíblica

 

 
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