<%@ Language=VBScript %> Ordem dos Frades Menores Capuchinhos

PAZ e BEM! Bem-vindo à Página dos Frades Missionários Capuchinhos

Página Principal


São Francisco Assis


Espírito de Assis


Porciúncula


Ordem Capuchinhos


Missão em Timor


Onde Vivemos


Espaço Jovem


Música


Apontadores


 
A Bíblia Responde

Jesus mandou amar os inimigos?

Jesus mandou amar os inimigos?

Um dos sermões mais revolucionários e exigentes pronunciados por Jesus, é o chamado “Sermão da Montanha” (Mt 5-7). Normalmente, seria lido nos Domingos VI e VII do Tempo Comum deste Ano A. Mas, porque este ano a Páscoa é celebrada mais cedo, não haverá tempo para esses domingos e os textos não serão proclamados.

O seu conteúdo é importante no Evangelho de Mateus, que procura revelar o novo espírito de entender a Lei antiga, trazido por Jesus. Perante os seus ouvintes atónitos, Ele disse-lhes então, entre outras coisas, que se pode cometer adultério com o simples olhar (5,27-28); que chamar “imbecil” a alguém equivale a matá-lo (5,21-22); que não devemos oferecer resistência aos que nos fazem mal (5,38-39).

O texto evoca, também, o testemunho do amor de Deus ao enviar o seu Filho para salvar os pecadores, como Jesus diz a Nicodemos (Jo 3,16-17) e o testemunho do próprio Jesus que se entregou por todos até ao fim. Talvez Jesus não resuma em nenhum outro lugar do Evangelho, como aqui, o elevado ideal que supõe o ser cristão.

Nem dá para acreditar!

O assombro chega ao cúmulo, quando, a meio do seu sermão, o Senhor exclama: «Ouvistes o que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos, e orai por aqueles que vos perseguem» (Mt 5,43-44).

Se não tivesse sido Jesus a dizê-lo, ter-nos-ia parecido ridículo e absurdo. Mesmo assim, custa a acreditar que fale a sério. De facto, é possível mandar no amor? Alguém pode ordenar-nos sentir afecto por outro? Se a inclinação carinhosa por uma pessoa é espontânea e involuntária, como pode Jesus obrigar-nos a isso? Pior ainda: como amar a alguém que é nosso inimigo?

O amor sexual

Para evitar conclusões erradas, é necessário averiguar o que Jesus quis dizer, e assim saberemos o que Ele, na verdade exigiu aos seus seguidores quando mandou amar os inimigos.

Todo o problema está em que, em português, usamos sempre o único e mesmo verbo “amar”, seja qual for o amor ou sentimento a que nos queiramos referir. Ao passo que, na língua grega, em que os Evangelhos foram escritos, existem quatro verbos diferentes para dizer “amar”, cada qual com um sentido diferente.

Em primeiro lugar temos o verbo erao (donde deriva a palavra “eros” e o adjectivo “erótico”). Significa “amar” em sentido sexual. É empregado sempre para se referir ao afecto passional, à atracção mútua do homem e da mulher no seu aspecto espontâneo e instintivo. Alude, pois, ao amor agradável.

Por exemplo, no livro de Ester, diz-se: «o rei amou-a [erao] mais que a todas as outras mulheres» (2,17). E no livro do profeta Ezequiel, lê-se: «Por tudo isto, quero juntar todos os teus amantes [erao] aos quais agradaste, […]; vou descobrir a tua nudez diante deles» (16,37).

:: Em grego, o verbo “erao” emprega-se, pois, para descrever o amor romântico e carnal.

O amor familiar

O segundo verbo grego que significa amar é stergo. Indica o amor familiar, o carinho do pai por seu filho, ou do filho por seu pai.

Platão, por exemplo, dizia: «O menino ama [stergo] aqueles que o trouxeram ao mundo, e é amado por eles.» Outro escritor grego, Filémon, expressava: «Um pai é doce para com o seu filho, quando é capaz de o amar [stergo].»

Este verbo também aparece na Bíblia. São Paulo, na sua carta aos Romanos, pedia-lhes: «Sede afectuosos uns para com os outros no amor [stergo] fraterno» (12,10). Paulo usa este verbo a propósito, pois considera que os cristãos devem sentir-se membros de uma mesma família.

:: O verbo “stergo” alude ao amor doméstico, de família, esse amor que não se merece, porque brota naturalmente dos laços de parentesco.

O amor de amigos

Um terceiro verbo grego que se usa para dizer amar, é fileo. Exprime o amor de amizade, o afecto caloroso e terno que se sente entre dois amigos. Em português seria mais apropriado traduzi-lo por “estimar”. Assim, quando Lázaro, o amigo de Jesus, adoeceu, as suas irmãs mandaram dizer-lhe: «Senhor, aquele que amas [fileo] está doente» (Jo 11,3). E quando Maria Madalena não encontra o cadáver de Jesus no sepulcro, sai a correr à procura de Pedro e «o outro discípulo, o que Jesus amava» (Jo 20,2). E o autor da Carta a Tito despede-se: «Saúda todos os que nos amam [fileo] na fé» (3,15).

O verbo está tão relacionado com a acção de querer com amizade, que dele saiu a palavra “filos” (amigo), muito usado no NT. Assim, na parábola do filho pródigo, o irmão mais velho queixa-se ao pai: «Há tantos anos que te sirvo sem nunca transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito para fazer uma festa com os meus amigos [filos]» (Lc 15,29). E o próprio Jesus na última ceia, ao despedir-se dos seus apóstolos diz-lhes: «Vós sois meus amigos [filos] se fizerdes o que Eu vos mando» (Jo 15,14).

:: Vemos, então, que em grego se reserva geralmente a palavra “fileo” para o amor de camaradagem, de amizade, ou que de algum modo supõe uma resposta, uma retribuição.

O amor caritativo

Resta o quarto e último verbo, que é agapao. É utilizado para o amor de caridade, de benevolência, de boa vontade; o amor capaz de dar e continuar a dar-se sem esperar que nada lhe seja devolvido. É o amor totalmente desinteressado, completamente abnegado, o amor com sacrifício. Deste verbo deriva a palavra ágape (= amor de caridade).

É o utilizado por São João quando, ao iniciar o relato da última ceia, escreve: «Antes da festa da Páscoa, Jesus, sabendo que tinha chegado a sua hora da passagem deste mundo para o Pai, Ele, que amara [agapao] os seus que estavam no mundo, levou o seu amor por eles até ao extremo» (13,1). E quando Jesus diz: «Assim como o Pai me tem amor, assim Eu vos amo [agapao] a vós. Permanecei no meu amor» (Jo 5,9). E quando recorda aos apóstolos: «Ninguém tem mais amor [ágape], do que quem dá a vida pelos seus amigos» (Jo 15, 13).

Segundo esta quarta categoria de “amor”, não importa o que uma pessoa pode fazer, ou fazer-nos; não importa a forma com que nos trata, se nos injuria ou ofende. Sempre estará em nós a possibilidade de “amá-la”, que não consiste em “sentir algo” por ela, mas em “fazer algo” por ela, prestar-lhe um serviço, oferecer-lhe uma ajuda, mesmo sem o sentir afectivamente.

:: O amor de “agapao” não consiste no afectivo, mas no efectivo. É um amor racional e activo. É o amor teológico. O amor total.

Para uma pergunta pretensiosa…

Como dissemos acima, para traduzir estes quatro verbos gregos em português temos uma única palavra: amar. Isto faz com que nem sempre se captem as diferenças de cada um.

Um exemplo já clássico, é o famoso episódio em que Jesus ressuscitado aparece aos apóstolos junto do lago de Tiberíades. Depois de ter comido com eles, «perguntou a Simão Pedro: “Simão, filho de João, tu amas-me mais do que estes?” Pedro responde-lhe: “Sim, Senhor, Tu sabes que eu sou deveras teu amigo.” Jesus disse-lhe: “Apascenta os meus cordeiros.”

Voltou e perguntar-lhe uma segunda vez: “Simão, filho de João, tu amas-me?” Ele respondeu: “Sim, Senhor, Tu sabes que eu sou deveras teu amigo.” Jesus disse-lhe: “Apascenta as minhas ovelhas.”

E perguntou-lhe, pela terceira vez: “Simão, filho de João, tu és deveras meu amigo?” Pedro ficou triste por Jesus lhe ter perguntado à terceira vez: ‘Tu és deveras meu amigo?’ Mas respondeu-lhe: “Senhor, Tu sabes tudo, Tu bem sabes que eu sou deveras teu amigo.” E Jesus disse-lhe: “Apascenta as minhas ovelhas…”.» (Jo 21,15-17).

Este relato esconde, em grego, um jogo de palavras que se torna quase intraduzível na nossa língua. Mas, na actual Bíblia Sagrada da Difusora Bíblica, foi encontrada uma boa tradução.

… uma resposta humilde

De facto, quando Jesus pergunta pela primeira vez a Pedro se ele o ama, usa o verbo “agapao” (v.15). Mas Pedro responde-lhe com “fileo”. Isto é, Jesus pergunta a Pedro se o ama com o amor total, o amor de entrega e de serviço incondicional, o amor que compromete em cheio a vida sem esperar recompensa. E Pedro, que dias antes tinha negado conhecer o Senhor, e se sabia como era débil e imaturo, responde humildemente com o verbo “fileo”, menos pretensioso, dizendo que é seu amigo. Não se sente capaz do amor supremo de “agapao”.

Quando Jesus lhe faz a mesma pergunta pela segunda vez: «Simão, filho de João, tu amas-me (v.16), Pedro adivinha a insistência do seu Mestre, mas responde novamente com o verbo “fileo”: «Sim Senhor, Tu sabes que eu sou deveras teu amigo

Então, Jesus, que nunca exige a ninguém nada para além das suas possibilidades, e que sabe esperar com paciência pelo processo de amadurecimento de cada pessoa, pergunta pela última vez, mas agora com o verbo “fileo”, do modo que Pedro lhe pode responder. E diz-lhe: «Simão, filho de João, tu és deveras meu amigo Então, sim; Pedro, embora triste, sente-se identificado com a pergunta, e responde-lhe nesses mesmos termos. E Jesus aceita. Mas anuncia-lhe que o seu amor não ficará por ali; que há-de crescer e amadurecer, a atingirá o “agapao” requerido, pois um dia chegará a dar a sua vida pelo Mestre (Jo 21,18-19).

Embora saibamos que Jesus falava em aramaico, evangelista João pôs este diálogo na sua boca para nos deixar una preciosa lição.

Aquilo que o mandamento manda

Voltemos agora à frase de Jesus. Quando Ele mandou amar os inimigos, não utilizou o verbo “erao”, nem “stergo”, nem “fileo”, mas o “agapao”. E, com esta precisão, podemos descobrir melhor o que Ele quis ensinar.

Jesus nunca pediu que amássemos os nossos inimigos do mesmo modo que amamos os nossos entes queridos. Não pretendeu que sentíssemos o mesmo afecto que sentimos pelo nosso cônjuge, os nossos familiares, ou os nossos amigos. Se tivesse querido isto, teria empregado outros verbos.

O amor que Jesus exige aqui é outro. É o “ágape”. E este não consiste num sentimento, nem em algo do coração. Se dependesse do nosso afecto, não somente seria uma ordem impossível de cumprir, mas até absurda, pois ninguém pode obrigar-nos a sentir afecto.

O ágape que Jesus pede consiste numa decisão, uma atitude, uma determinação que pertence à vontade. Isto é, que convida a “amar” mesmo contra os sentimentos que experimentamos instintivamente.

O amor que Ele ordena não obriga a sentir apreço ou estima por quem nos ofendeu, nem a retribuir com amizade a quem nos agravou ou defraudou. Não. Aquilo que Jesus pede é a capacidade de ajudar e prestar um serviço de caridade, se algum dia aquele que nos ofendeu alguma vez precisar de nós.

Com três ilustrações

Com três breves comentários, o próprio Jesus se encarrega de explicar, no Evangelho de Lucas, o alcance do amor aos inimigos (6,27-28).

Em primeiro lugar, diz: «Fazei bem aos que vos odeiam Não somente proíbe a vingança das ofensas recebidas, mas manda ajudá-los se alguma vez estiverem em dificuldades e necessitarem de nós. É o que diz São Paulo: «Se o teu inimigo tem fome, dá-lhe de comer; se tem sede, dá-lhe de beber.» E acrescenta, citando o livro dos Provérbios: «porque, se fizeres isso, amontoarás carvões em brasa sobre a sua cabeça» (Rm 12,20). Supõe-se que pelo remorso e a perturbação, pois ele verá que é nosso inimigo, ao passo que nós não somos inimigos dele.

Em segundo lugar, pede: «Abençoai os que vos amaldiçoam.» E aqui, abençoar significa bendizer, “dizer bem”, “falar bem” de alguém. Não se trata, certamente, de mentir sobre virtudes alheias, nem de dizer que alguém é bom quando na realidade é mau, nem de o louvar quando não merece ser louvado. Abençoar significa poder falar bem de alguém que o merece e de quem é justo fazê-lo, mesmo quando temos alguma coisa contra ele ou nos é antipático.

Em terceiro lugar, acrescenta: «Rezai pelos que vos caluniam.» Rezar por alguém que o necessita, embora seja nosso inimigo, é uma forma de enviar ao seu coração a graça de Deus. E nunca a graça de Deus sobre o nosso inimigo pode tornar-se perniciosa para nós. Pelo contrário, a nossa oração beneficiá-lo-á, e teremos, assim, alguém menos inimigo. Além disso, ninguém pode rezar em favor de outra pessoa e continuar com o mesmo ressentimento. No interior de quem reza, acontece algo que o impede de continuar a sentir o rancor anterior.

Orar por alguém que nos ofendeu é o meio mais garantido de começar a curar as feridas interiores. É, pois, uma forma de rezar também por nós.

“Perdoo, mas não esqueço”

Fica por esclarecer uma última questão. Muita gente sente-se culpada, porque perdoa mas não esquece. E pensa que isso está mal, mas não pode evitá-lo.

Será que o perdão implica necessariamente o esquecimento? Para tranquilidade dos cristãos, devemos dizer que não, que não é preciso esquecer. Porque a memória é uma faculdade que actua independentemente da nossa vontade. A prova está em que muitas vezes nos propomos esquecer situações desagradáveis vividas, e não podemos. E outras vezes queremos recordar certas coisas e não o conseguimos.

Por isso, quando uma pessoa é ofendida, se tem boa memória ou se a ofensa foi muito grande, possivelmente vai recordá-la toda a vida, e não tem culpa disso. Alguém pode perdoar, e continuar a lembrar-se da ofensa. Pode desculpar um agravo, e evocá-lo espontaneamente cada dia por causa da sua boa memória.

O que devemos procurar é não trazer constantemente à memória, por vontade própria, as lembranças desagradáveis e as injúrias sofridas, para mantê-las vivas. Seria um modo doentio de recordar.

Iguais a seu Pai

E por que motivo devemos nós, cristãos, ter amor pelos nossos inimigos, manter uma atitude de serviço com quem nos ofende, e de boa vontade para com todos? Jesus explica: «Fazendo assim, tornar-vos-eis filhos do vosso pai que está no Céu, pois Ele faz com que o sol se levante sobre os bons e os maus e faz cair a chuva sobre os injustos e os pecadores.» (Mt 5,45)

Esta atitude de Deus pode parecer-nos desconcertante. Até os judeus se sentiam comovidos e impressionados pela extraordinária benevolência que Deus demonstra tanto pelos santos como pelos pecadores. Uma lenda judia conta que, quando os egípcios, perseguindo os israelitas durante o êxodo, se afundaram nas águas do Mar Vermelho, os anjos no céu entoaram cânticos de alegria. Mas Deus mandou-os calar e repreendeu-os com tristeza: “A obra das minhas mãos acaba de perecer afogada no mar, e vocês cantam-me um hino de louvor?”

O amor de Deus é assim universal. O seu auxílio, a sua disponibilidade, a sua protecção, estendem-se a todas as pessoas, tanto crentes como ateias, tanto as que O amem como as que O ofendam. E assim deve ser, também, o nosso amor. É o único modo de nos tornarmos semelhantes a Ele.

Ariel Álvarez Valdés,

Sacerdote argentino, biblista

 

 
Página Principal | Capuchinhos em Portugal | Contactos | Ficha Técnica | Sugestões

© 2005 Ordem dos Frades Menores Capuchinhos (Portugal)