PAZ e BEM! Bem-vindo à Página dos Frades Missionários Capuchinhos

Página Principal


São Francisco Assis


Espírito de Assis


Porciúncula


Ordem Capuchinhos


Missão em Timor


Onde Vivemos


Espaço Jovem


Música


Apontadores


 
A Bíblia Responde

Quantos "Pai-Nossos" ensinou Jesus a rezar?

Quantos "Pai-Nossos" ensinou Jesus a rezar?

 

 

Até aos anos sessenta, todos aprenderam a rezar, no Pai-Nosso:

«Perdoai as nossas dívidas, assim como

nós perdoamos aos nossos devedores.»

De repente, começou-se a rezar:

«Perdoai-nos as nossas ofensas

assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.”

Porquê? Não apenas porque todos somos pecadores,

mas nem todos somos caloteiros. Há razões mais bíblicas…

 

 

A alteração que incomodou

 

Muitos, ficaram baralhados: “Então, a Igreja tem poder para alterar a oração de Jesus? Se Ele ensinou a rezar assim, porque havemos de modificar a oração que Ele ensinou? Mas esses, não se tinham apercebido de que existem dois Pai-Nossos diferentes na Bíblia: um no Evangelho de Mateus, e outro no Evangelho de Lucas. E o que a Igreja tinha feito ao alterar a frase antes citada, fora simplesmente passar da versão de Mateus para a de Lucas. Embora em Latim continuemos a dizer “debita” e “debitores” (“dívidas” e “devedores”, respectivamente).

 

Isto já nos leva a outras perguntas: porque existem dois Pai-Nossos diferentes, se Jesus ensinou a rezar apenas um? E qual dos dois foi o que Ele realmente ensinou?

 

 

Em privado, ou em público?

 

A primeira coisa a notar é que os dois Pai-Nossos dos Evangelhos estão apresentados em ocasiões diferentes.

 

Segundo Lucas, Jesus ensinou-o em privado aos seus discípulos, num dia em que estava só a rezar. Ao terminar, e perante o pedido dos apóstolos, respondeu: «Quando orardes, dizei.» E recitou-o (11,2-4). Segundo Mateus, Jesus tê-lo-ia recitado diante de uma verdadeira multidão, por altura do sermão da montanha. Ali, após advertir as pessoas de que para rezar não faziam falta muitas palavras, propôs-lhes esta oração (6,9-13).

 

É claro, por isso, que durante a sua vida, o Senhor ensinou aos seus apóstolos o “Pai-Nosso”. O problema surgiu quando, vários anos mais tarde, Mateus e Lucas redigiram os seus Evangelhos, pois já não se lembravam exactamente do momento em que a oração tinha sido ensinada. Então, cada um decidiu colocá-la onde melhor se ajustava à sua própria teologia.

 

Assim, Mateus colocou-o no discurso inaugural de Jesus; porque, sendo este o sermão em que deixava o seu “programa” para o Reino dos Céus, não podia faltar o tema da oração. Por sua vez, Lucas colocou-o enquanto Jesus ia a caminho numa longa viagem a Jerusalém, pois para este evangelista o homem deve aprender a rezar enquanto vai pelo caminho da vida, a fim de viver em comunhão com Deus.

 

 

Um breve e outro longo

 

Se compararmos as duas versões do Pai-Nosso, veremos que a mais breve é a de Lucas. Só inclui cinco petições, e diz assim:

 

«Pai,

santificado seja o teu nome;

venha o teu Reino;

dá-nos o nosso pão de cada dia;

perdoa os nossos pecados,

pois também nós perdoamos

a todo aquele que nos ofende;

e não nos deixes cair em tentação.»

 

A de Mateus é mais longa. Inclui sete petições. O seu texto é:

 

«Pai nosso, que estás no Céu,

santificado seja o teu nome,

venha o teu Reino;

faça-se a tua vontade,

como no Céu, assim também na terra.

Dá-nos hoje o nosso pão de cada dia;

perdoa as nossas dívidas,

como nós perdoamos aos nossos devedores;

e não nos deixes cair em tentação,

mas livra-nos do mal.»

 

A maioria dos biblistas defende que a versão de Lucas é mais antiga, e talvez aquela que Jesus realmente ensinou. Porquê? Porque, se o Pai-Nosso de Mateus (o mais longo) fosse o original, não se compreende porque razão Lucas o teria reduzido. Pelo contrário, se o Pai-Nosso de Lucas (o mais breve) é o original, torna-se mais compreensível que Mateus o tenha alongado, inspirado pelo Espírito Santo, a fim de o acomodar melhor à forma de pensar dos seus leitores judeus.

 

 

Começar como um judeu

 

Quais as alterações que Mateus introduziu no Pai-Nosso? Em primeiro lugar, em vez de começar apenas com “Pai”, como Lucas, acrescentou-lhe “nosso”. Para entendermos porquê, devemos saber que Mateus é um judeu que escreve para os judeus, ao passo que Lucas escreve para os pagãos. Ora bem, o povo judeu costumava dar geralmente a Deus o título de “nosso Pai”. Encontramo-lo várias vezes no Antigo Testamento (Is 63, 16;64,7; Jr 3,4; 31,9; Ml 2,10; Sl 89,27). Sobretudo, os judeus começavam assim as suas orações de cada dia.

 

Após dizerem «Pai nosso», a fim de evitarem qualquer proximidade menos respeitosa com Deus e sublinharem a sua santidade e transcendência, os israelitas costumavam acrescentar: «que está nos céus». Sabemo-lo pela Mishná, uma colecção de ensinamentos e reflexões judaicas dos grandes rabinos antigos de Israel. Ali, é comum encontrar a frase: “Nosso Pai, que está nos céus.”

 

Portanto, Mateus começou o seu Pai-Nosso com esta fórmula, para torná-lo mais familiar à mentalidade dos seus leitores judeus.

 

 

A vontade e as dívidas

 

A segunda alteração que Mateus fez foi acrescentar, depois das duas primeiras petições, uma terceira: «Faça-se a tua vontade, / como no céu, assim também na terra.» Como bom judeu, sabia que, em qualquer oração, era um ingrediente essencial pedir que se cumprisse a vontade de Deus.

 

Onde se inspirou, para esta fórmula? Muitos pensam que foi no Salmo 135,6: «Tudo o que o Senhor quer, Ele o faz: / no céu e na terra...». Ou no Salmo 115,3: «O nosso Deus, lá do céu, / faz tudo o que lhe apraz.»

 

Mais adiante, Mateus fez uma nova modificação: em vez de «Perdoa as nossas ofensas», colocou «Perdoa as nossas dívidas.»

 

Compreende-se. Os israelitas costumavam exprimir a sua relação com Deus em termos jurídicos. E, quando um homem não cumpria com os mandamentos, dizia-se que estava “em dívida” com Deus. Por isso, todo o pecado cometido contra Deus, era uma “dívida” contraída com Ele.

 

Jesus usará várias vezes esta metáfora. Por exemplo, para nos ensinar a perdoar, contou a parábola de um homem que devia 10.000 talentos, e outro que devia 100 denários (Mt 18,23-35). Para explicar porque perdoou a uma pecadora pública, contou a parábola dos dois devedores (Lc 7,36-50). Para advertir acerca das graves consequências que pode trazer consigo o não perdoar, relatou a parábola de um homem que foi metido na prisão por não pagar uma dívida (Mt 5,25-26).

 

Assim, o «perdoa-nos as nossas dívidas» de Mateus ajustava-se muito melhor à linguagem familiar dos seus leitores judeus.

 

 

O número que faltava

 

A última variante de Mateus está no final da oração. Enquanto Lucas termina: «Não nos deixes cair em tentação», Mateus acrescenta «e livra-nos do mal». Esta petição não acrescenta nada novo à anterior: se um é protegido para não cair em tentação, livra-se do poder do mal. Trata-se, antes, de um esclarecimento. Exprime pela positiva o que antes se dizia negativamente.

 

Porque motivo a inclui, então, Mateus? Talvez procurasse, deste modo, que a oração tivesse 7 petições. Para a mentalidade judia, o 7 era o número perfeito. Assim, Mateus terá querido significar que esta oração encerra uma totalidade perfeita, a que não se pode acrescentar nem tirar nada.

 

 

Uma prece sinfónica

 

Mas nós não precisamos de recorrer ao simbolismo do número 7 para chegar à mesma conclusão. Analisando cuidadosamente a oração, e o seu sentido interno, descobrimos uma perfeição e uma riqueza insuperáveis, que na verdade não admitem acréscimos nem supressões.

 

Com efeito, a primeira coisa que salta à vista é que a oração está dividida em duas partes.

 

A primeira, com três petições referidas a Deus:

a) santificado seja o teu nome;

b) venha o teu reino;

c) faça-se a tua vontade.

 

A segunda, também com três petições (mais uma quarta, acrescentada), referidas a nós e às nossas necessidades:

a) o pão;

b) o perdão dos pecados;

c) não cair em tentação.

 

O que devemos sublinhar é a ordem das petições. Primeiro estão as relacionadas com Deus e o seu projecto salvífico, e depois as relativas às nossas necessidades pessoais.

 

Com isto, Jesus quis ensinar-nos que só quando Deus ocupa o primeiro lugar na nossa vida, o resto passa a ocupar o lugar que lhe corresponde. Com a oração nunca se pretende vergar a vontade de Deus para adequá-la aos nossos caprichos. Só quando procuramos conhecer o que Deus quer de nós e da sociedade, poderemos rezar adequadamente sem temer que os nossos pedidos sejam inadequados ou superficiais.

 

 

O homem todo

 

A segunda parte do Pai-Nosso, que se ocupa das nossas necessidades, forma, por sua vez, um conjunto maravilhosamente conseguido. Alude às três necessidades essenciais do homem. E ao mesmo tempo, abarca as três esferas do tempo nas quais nos movemos.

 

Primeiramente, pede-se o pão de cada dia: assim, elevam-se até Deus as necessidades do presente. Depois pede-se perdão pelos pecados: coloca-se diante de Deus o nosso passado. Em terceiro lugar pede-se ajuda nas tentações: com isso coloca-se o futuro nas mãos do Senhor.

 

Em consequência, com estas três breves petições é-nos ensinado a colocar toda a nossa vida – passado, presente e futuro – nas mãos poderosas de Deus.

 

Deus todo

 

Mas a oração está tão magnificamente elaborada, que não só eleva e coloca a totalidade da vida humana perante a misericórdia divina. Também faz descer a totalidade de Deus até à nossa vida.

 

De facto, quando pedimos o pão para o sustento diário pensamos espontaneamente em Deus Pai, criador e conservador da vida. Quando pedimos perdão, imediatamente recordamos a Deus Filho, o Salvador, que deu a sua vida pelo perdão dos nossos pecados. Quando pedimos ajuda para não cair nas tentações, pensa-se instantaneamente no Espírito Santo, guia e fortaleza dos cristãos na vida.

 

De um modo extraordinário, a segunda parte do Pai-Nosso toma todo o nosso presente, passado e futuro, e oferece-o a Deus Pai, Filho e Espírito Santo. O homem todo une-se a Deus todo, num magistral encontro de amor e de vontades.

 

 

Jesus rezou o Pai-Nosso?

 

Resta-nos uma última pergunta: Terá Jesus rezado alguma vez o Pai-Nosso? Tudo leva a supor que não. De facto, se analisarmos nos Evangelhos qual era a oração que Ele fazia quando falava com o seu Pai, nunca vemos que tenha rezado o Pai-Nosso.

 

Por exemplo, quando uma vez os discípulos regressaram da sua missão, relatando o êxito obtido, Ele, exultante de alegria, irrompeu numa acção de graças: «Bendigo-te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos inteligentes e as revelaste aos pequeninos» (Lc 10,21).

 

Noutra ocasião, quando se preparava para ressuscitar o amigo Lázaro, a sua oração foi: «Pai, dou-te graças por me teres atendido. Eu já sabia que sempre me atendes, mas Eu disse isto por causa da gente que me rodeia, para que venham a crer que Tu me enviaste» (Jo 11,41-42).

 

Nem nos piores momentos

 

Durante a última ceia, no meio da tristeza da sua despedida, a oração que fez diante dos apóstolos foi: «Pai, chegou a hora. Manifesta a glória do teu Filho, de modo que o Filho manifeste a tua glória, segundo o poder que lhe deste sobre toda a humanidade» (Jo 17,1-2).

 

E quando se retirou para rezar a sós na gruta de Getsémani, prevendo já o desenlace iminente da sua dramática morte, orou: «Pai, se quiseres, afasta de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, mas a tua» (Lc 22,42).

 

Enquanto o crucificavam, rezou pelos soldados: «Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem» (Lc 23,34). Quando agonizava, orou a seu Pai: «Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?» (Mc 15, 34). E finalmente morreu com a prece: «Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito» (Lc 23,46).

 

Vemos, pois, que em nenhuma circunstância da sua vida – nem feliz nem triste, nem séria nem dolorosa – Jesus rezou o Pai-Nosso. Então, porque nos ensinou a rezá-lo?

 

 

Como deve rezar o cristão

 

Talvez haja uma resposta para isto. Ao ensinar o Pai-Nosso aos seus apóstolos, Jesus disse-lhes: «Quando orardes, dizei...». Isto é, trata-se de uma oração para rezar em grupo.

 

Isto vê-se claramente pelas fórmulas no plural, que utiliza: «Pai nosso», «o pão nosso», «dá-nos hoje», «perdoa os nossos pecados», «nós perdoamos», «nos ofende», «não nos deixes cair», «livra-nos». Parece, pois, que o Pai-Nosso não é uma oração para ser rezada individualmente, mas com os outros, quando a comunidade se encontra reunida.

 

Então, quando uma Pessoa reza só, como deve rezar? Deve fazer como Jesus: criar a sua própria oração, segundo as circunstâncias. Se estiver a viver um momento feliz, deve fazer uma oração alegre. Se está a passar por uma circunstância penosa, deve elaborar uma oração que reflicta a sua dor.

 

Mas nem sempre é melhor rezar orações já feitas, ou pré-fabricadas. Porquê? Porque, sendo fórmulas fixas, pensadas por outros, às vezes não exprimem o que eu preciso de dizer nesse momento, e torna-se assim mais difícil entrar num verdadeiro diálogo com Deus.

 

 

Quanto vale uma oração

 

Mas, quando nos juntamos para orar em grupo, comunitariamente, como no caso da Eucaristia, por exemplo, seria um caos se cada qual criasse a sua própria oração em voz alta. Então, sim, tendo-nos posto de acordo, torna-se gratificante rezar o Pai-Nosso, a Ave-Maria, o Credo, ou as outras orações já preparadas, porque permitem reflectir, com elas, a unidade da assembleia.

 

Para quem tiver dificuldade, por exemplo, de rezar o rosário em privado, devido à dificuldade em se concentrar ou à monotonia de repetir sozinho tantas vezes o mesmo, um excelente remédio seria dedicar o mesmo tempo que levaria a rezá-lo, a fazer uma oração espontânea à Virgem Maria. Talvez com isso ganhasse em concentração, em expressividade e em comunicação com Maria.

 

A oração é um diálogo. Ninguém se dirige a uma pessoa que tem diante de si, dizendo-lhe: “Excelentíssimo Senhor, tenho a maior satisfação em dirigir-me a Vª Excia. com o objectivo de lhe dizer…”; antes pelo contrário, fala-lhe espontaneamente. Assim também, quando se fala com Deus a sós, será muito melhor fazê-lo espontaneamente.

 

A oração não tem apenas poder para transformar a realidade exterior, mas também para transformar aquele que reza. No entanto, para isso é preciso entender e atender àquilo que diz. O qual se consegue quando cada um cria a sua própria oração. Assim falava Jesus com o seu Pai. Assim convém que lhe falemos nós.

Ariel Álvarez Valdés,

Sacerdote argentino, biblista,

in Revista Bíblica

 

 
Página Principal | Capuchinhos em Portugal | Contactos | Ficha Técnica | Sugestões

© 2006 Ordem dos Frades Menores Capuchinhos (Portugal)