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Encontro com a Bíblia

O Evangelho de Marcos

Com a Solenidade do Pentecostes,

termina o Tempo litúrgico da Páscoa e tem início

a segunda parte do Tempo Comum.

Parece-me, por isso, oportuno apresentar agora o

Evangelho de São Marcos, que é lido na maior

parte dos Domingos e Festas deste ano.

Tal como acontece com os outros livros da Bíblia, também os Evangelhos não surgem da iniciativa nem da cabeça ou experiência individual de um escritor sagrado. São, antes de mais, o testemunho de uma Comunidade que acolheu o anúncio de Jesus Cristo feito pelos apóstolos e sentiu, depois, o apelo de Jesus:

«Ide pelo mundo inteiro, proclamai o

Evangelho a toda a criatura.» (Mc 16,15)

Quer isto dizer que, antes de escrever o Evangelho e ser evangelista, Marcos ouviu o anúncio do mesmo Evangelho feito por outros e viveu como discípulo de Jesus numa comunidade cristã. A sua vida de fé e o seu zelo apostólico é que lhe mereceram, depois, a confiança da comunidade para se tornar seu porta-voz junto dos pagãos.

De discípulo e evangelizador, a evangelista

Os Actos dos Apóstolos falam da «casa de Maria, mãe de João, de sobrenome Marcos»; e dizem que, ao ser libertado da prisão por um anjo, alta noite, Pedro dirigiu-se a essa casa, «onde numerosos fiéis  estavam reunidos a orar» (Act 12,12). Ou seja: no tempo em que não havia igrejas, a “igreja doméstica” da casa da mãe de Marcos seria um dos vários lugares de encontro, oração e culto dos cristãos da cidade. E terá sido nessa comunidade familiar que o futuro evangelista foi iniciado na fé em Jesus Cristo.

A seguir à execução de Tiago, quando Herodes maltratava e prendia alguns membros da Igreja de Jerusalém (Act 12,1-3), Marcos foi levado daqui pelo apóstolo Barnabé, seu primo, e por Saulo, que se dirigiram para Antioquia (Act 12,25). E vai ser Barnabé – que «era um homem bom, cheio do Espírito Santo e de fé» e já fora mestre de Saulo no apostolado (Act 11,22-25) – quem vai iniciar Marcos na evangelização, levando-o com eles «como auxiliar» (Act 13,5) quando foram enviados pela igreja de Antioquia para a 1ª Viagem Missionária de São Paulo.

Mas, parece que o jovem (o mesmo que foge em Mc 14,51?) ainda não tinha amadurecido bem para esse trabalho; pois, quando aqueles dois apóstolos se dirigiram de Pafos para Antioquia da Pisídia, «João, separando-se deles, voltou para Jerusalém» (Act 13,13).

Na 2ª Viagem,

«Barnabé queria também levar João, chamado Marcos. Mas Paulo não era de parecer que se levasse por companheiro quem deles se havia afastado na Panfília e não os tinha acompanhado no trabalho. Seguiu-se uma discussão tão violenta que se separaram um do outro e Barnabé tomou Marcos consigo, embarcando para Chipre. Por seu turno, Paulo, tomou Silas por companheiro e partiu» (Act 15,37-40).

Deste aparente escândalo nasce uma nova equipa missionária. E Marcos certamente aprendeu a lição, pois estará novamente ao lado de Paulo quando este, entre 61 e 63, se encontra preso em Roma e pensa enviá-lo à Igreja de Colossas (Cl 4,10). Finalmente, em Roma, vai encontrar-se de novo com Pedro, que o trata por «meu filho» na sua 1ª Carta 5,13.

O Evangelho de Jesus Cristo

Segundo a voz praticamente unânime da tradição, foi em Roma que Marcos escreveu o seu livro, entre o ano 65 e 70, para transmitir o fundamental da mensagem que tinha ouvido a Pedro acerca de Jesus. Para isso, cria o género literário “Evangelho”, com que dá aos cristãos oriundos do paganismo esta boa notícia: «Jesus Cristo é Filho de Deus» (1,1).

Como eles não conheciam a Lei nem os profetas que tinham preparado a vinda do Messias, envolve Jesus num mistério, chamado “segredo messiânico”, desvelado a espaços entre a interrogação «Que é isto?» (1,27) ou «Quem é este...?» (7,37) e o assombro «Nunca vimos coisa assim!» (2,12).

Pelo meio, ouvimos o testemunho dos demónios (1,23-24), do Pai (1,11; 9,1-7), do cego Bartimeu (10,47-48) e do próprio Jesus (14,61). Mas o maior testemunho vai ser dado por um pagão, o centurião romano, ao vê-lo morrer na cruz: «Verdadeiramente este homem era Filho de Deus!» (16,16). Entre estes dois pólos, o livro tem o seu vértice precisamente a meio, com a confissão de Pedro em 8,29: «Tu és o Messias!»

Ler o Evangelho seguido

Marcos é o mais breve dos quatro Evangelhos: apenas 16 capítulos, face aos 21 de João, 24 de Lucas e 28 de Mateus. E é o mais simples, directo e colorido, valorizando pormenores em apoio de uma fé sensível ao extraordinário. Precisamente por isso, até ao século XIX esteve bastante subalternizado. Sobretudo ao de Mateus, onde a Igreja aparece mais organizada com os seus ministérios e sacramentos.

Havia, então, a ideia de que os Evangelhos eram vidas de Jesus, e tendia-se a constituir uma só biografia dispondo os quatro textos em concordância. Só depois se descobriu a pedagogia e os objectivos de cada um conforme as comunidades a que se destinavam; e a reforma litúrgica do Vaticano II fez surgir três ciclos em que é valorizado cada um dos Sinópticos – Mateus, Marcos e Lucas – e servindo-se de João, o evangelista da fé, para os Tempos do Natal e da Páscoa.

Para reflectir

Proponho aproveitar este período até ao fim do Ano litúrgico para ler o texto do Evangelho segundo São Marcos todo seguido, sem se preocupar inicialmente com as notas explicativas. Apenas sentindo cá dentro a voz do Pai: «Este é o meu Filho muito amado. Escutai-o» (9,7b):

É a melhor forma de captar a identidade e as diferenças deste Evangelho e de se perceber o motivo porque tem sido considerado o Evangelho para as pessoas de hoje.

Se o fizer de lápis na mão,

> sublinhando as reacções dos vários personagens à figura de Jesus, e

> assumindo algumas das várias confissões de fé de vários personagens acerca de Jesus, nele incluídas ,

tanto melhor.

frei Lopes Morgado

 

 
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