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Para ler São Marcos

 

Para ler São Marcos

 

O tempo a seguir ao Pentecostes é o tempo da Igreja.

Tempo de os cristãos-discípulos se tornarem apóstolos,

e se porem a caminho na tarefa da evangelização:

“Jesus chamou os doze Apóstolos e começou a enviá-los…”

 

 

Neste artigo e nos dois seguintes, falarei dos textos do Evangelho de São Marcos que vão ser lidos nos Domingos de Junho a Novembro. Com esta dupla preocupação: sublinhar as suas diferenças em relação aos dos outros evangelistas e as propostas que nos fazem para a vida. Pois, como lembrou o Vaticano II, «cada discípulo de Cristo participa na responsabilidade de espalhar a fé.» (LG 17)

 

 

“com muitas parábolas como estas…”

 

» No XI Domingo, a 18 de Junho, são proclamadas duas parábolas: a semente que germina e o grão de mostarda (Mc 4,26-34). Na primeira, exclusiva de Marcos, o reino de Deus é comparado a «um homem que lançou a semente à terra. Dorme e levanta-se, noite e dia, enquanto a semente germina e cresce, sem ele saber como. A terra produz por si…», até quando ele «lhe mete a foice, porque chegou o tempo da ceifa».

 

Bela imagem da gratuidade de Deus, que lembra o salmo 127. Não como convite à preguiça ou inércia, mas à confiança, aceitando os nossos limites depois de esgotarmos as capacidades que Ele nos deu. Porque tudo é dom: «Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os construtores. Se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigiam as sentinelas. De nada vos serve levantar muito cedo e trabalhar pela noite dentro, para comer o pão de tanta fadiga, pois, até durante o sono, Ele o dá aos seus amigos.» (vv. 1b-2).

 

Por sua vez, a parábola do grão de mostarda sublinha a força interior do reino de Deus: pequeno e aparentemente ineficaz, olhando para o nascimento de Jesus e da Igreja, tem vocação e capacidade para acolher todos os povos e culturas.

 

Marcos diz: «Jesus pregava-lhes a palavra de Deus com muitas parábolas como estas» (4,33). Mas o seu Evangelho não é muito pródigo em PARÁBOLAS. Ao todo, entre parábolas e comparações, são apenas nove:

:: o velho e o novo (2,21-22),

:: a família dividida (3,23-27),

:: o semeador (4,3-20),

:: a lâmpada (4,21-23),

:: a medida (4,23-25),

:: a semente que germina (4,26-29),

:: o grão de mostarda (4,30-32),

:: os vinhateiros homicidas (12,1-12)

:: e a figueira (13,28-32).

 

Como se vê, cinco estão no capítulo 4, paralelo ao capítulo 13 de Mateus, onde também explica o sentido da parábola. É do seu interesse lê-las e comparar os dois textos.

 

 

“Quem é este homem…?”

 

Ao escrever, Marcos pretende o mesmo que os outros evangelistas: levar as pessoas a aceitar Jesus, pela fé. No seu caso, a intenção parece mais explícita, pois logo no primeiro versículo sintetiza toda a cristologia que depois desenvolve nos 16 capítulos: «Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus.»

 

» Mas, pedagogicamente, leva os destinatários a interrogarem-se, antes de lhes revelar todo o “segredo messiânico” de Jesus. Sobretudo, com os MILAGRES que Ele realizou. É o que sucede no Evangelho do XII Domingo, a 25 de Junho, após o milagre da tempestade acalmada, quando os discípulos de Jesus «ficaram cheios de temor e diziam uns para os outros: “Quem é este homem, que até o vento e o mar lhe obedecem?”» (Mc 4,35-41).

 

» Marcos deixa os seus leitores e todos nós com esta interrogação, para continuarmos a aprofundar as razões da fé e a celebrá-la em comunidade. O Domingo XIII, a 2 de Julho, mostra-nos ainda o milagre da ressurreição da filha de Jairo, um dos chefes da sinagoga (Mc 5,21-43).

 

» Mas há perguntas que supõem rejeição ou encobrem uma desculpa de quem não se quer converter. É o caso da pergunta que os conterrâneos de Jesus lhe fazem, ao ouvi-lo pregar na sinagoga de Nazaré: «De onde lhe vem tudo isto? Não é Ele o carpinteiro...?» (Domingo XIV, 9 de Julho: Mc 6,1-6). A estratégia é desacreditar a verdade, tirando crédito ao pregador. Mesmo que Ele tenha razão.

 

O texto já foi lido a 1 de Maio, “Dia do Trabalhador” e de S. José Operário. Na altura, interroguei-me em comunidade, na homilia: Não será também esta a nossa estratégia, hoje, ao acentuarmos a marca política de alguns trabalhadores para desacreditar as suas justas reivindicações?

 

 

“Chamou-os e começou a enviá-los…”

 

» «Jesus chamou os doze Apóstolos e começou a enviá-los dois a dois. Os Apóstolos partiram e pregaram o arrependimento, expulsaram muitos demónios, ungiram com óleo muitos doentes e curaram-nos» – diz Mc 6,7-13 no Domingo XV, a 16 de Julho.

 

»  Apesar da sua fé, os pregadores do Evangelho não estão livres do cansaço. Por isso, Jesus pensa no equilíbrio dos seus: «Vinde comigo para um lugar isolado e descansai um pouco.» Mas, «ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão e compadeceu-se de toda aquela gente, que eram como velhas sem pastor. E começou a ensinar-lhes muitas coisas» (Domingo XVI, a 23 de Julho: Mc 6, 30-34). Descansar é um direito e poderá ser uma obrigação. Mas, o stress de que tanto se fala, também pode ser fruto da inactividade; então, cuidar de quem realmente precisa, irá desfazer os nossos dramas aparentes!

 

Quanto à COMPAIXÃO, nos Domingos XVII a XXI (30 de Julho a 27 de Agosto), a Liturgia recorre ao capítulo 6 de João para mostrar a compaixão activa de Jesus. Nele, há uma lição comum de atenção às pessoas e suas fomes e sedes, fazendo a transposição do material ao espiritual.

 

Mas, a lição de cada Domingo é complementada pelos textos do Antigo Testamento escolhidos pela Igreja como Primeira Leitura: por um lado anunciam e prefiguram o futuro sacramento da Eucaristia; por outro, fazem a passagem deste sacramento para a vida, projectando a comunhão no corpo e sangue do Senhor, na partilha concreta e solidária do pão material para matar a fome física das pessoas necessitadas.

 

» No Domingo XVII, a 30 de Julho, Jesus acolhe a multidão atraída pelos milagres que Ele tinha há feito e multiplica os pães para matar a sua fome física. Ao dizer que «estava próxima a Páscoa, a festa dos judeus», e ao colocar aqui os gestos e as palavras de Jesus que os Sinópticos utilizam no momento da instituição da Eucaristia na última ceia, João faz desta multiplicação dos pães uma ligação entre a Páscoa judaica e a Páscoa cristã, deixando transparecer o rito já então utilizado na celebração da Eucaristia: «Então, Jesus, tomou os pães, deu graças e distribuiu-os aos que estavam sentados, fazendo o mesmo como os peixes; e comeram quantos quiseram» (Jo 6,1-15; ver Mc 14,22; Lc 22,19). E com disto, João dá por instituída a Eucaristia, não falando já dela nas vésperas da Paixão, como fazem os Evangelhos Sinópticos.

 

Os pães e os peixes foram multiplicados a partir da merenda de cinco pães e dois peixes que um rapazinho levava consigo; o qual, também supõe a partilha de bens vivida pelos primeiros cristãos, como condição e consequência de uma vida eucarística (ver Act 2, 42-45). Por outro lado, a 1ª leitura apresenta um texto de 1 Rs 4, 42-44 do qual João parece ter decalcado o seu relato. Ali, também um servo oferece a Eliseu vinte pães de cevada e trigo novo. O profeta manda-o matar fome da gente com eles; e, como ele hesitasse, insistiu e ele distribuiu-os, tendo ainda sobrado alimento.

 

» A 6 de Agosto, a leitura do capítulo 6 de João é interrompida; pois, uma vez que as Festas do Senhor têm precedência em relação ao Domingo, este ano, em vez do XVIII Domingo Comum, celebramos a FESTA DA TRANSFIGURAÇÃO DO SENHOR. Ouvimos, por isso, o texto de Mc 9,10-12, já proclamado no II Domingo da Quaresma. Mas com diferentes intenções pedagógicas:

 

:: No Tempo da Quaresma a caminho da Páscoa, a pedagogia da Igreja era a mesma do Evangelista: preparar os três apóstolos “preferidos” de Jesus – Pedro, Tiago e João –, que haviam de assistir de perto à sua agonia no Getsémani, para que não perdessem a fé nele ao verem a sua fragilidade humana.

 

:: No Tempo Comum, quer lembrar que «a Igreja terrestre e a Igreja já na posse de bens celestes, não devem considerar-se coisas diversas, mas constituem uma realidade única e complexa em que se fundem dois elementos, o humano e o divino.» Mas, porque «a Igreja reúne em seu seio os pecadores e, por isso, ao mesmo tempo que é santa, precisa também de purificação, e sem descanso prossegue no seu esforço de penitência e renovação». (Lumen Gentium, 8). 

 

Leitura contínua do capítulo 6 de S. João

 

» No entanto, e apesar de este ano ser omitido, recordo o texto de Jo 6,24-35, correspondente ao Domingo XVIII. Primeiro, porque fica registado para os anos em que o dia 6 não cair ao Domingo; e depois, porque é preciso tê-lo em conta para entender a sequência que vai ser lida no próximo Domingo.

 

Já estamos no dia seguinte ao do milagre da multiplicação dos pães. Jesus nota que a multidão continua a procurá-lo, mas por interesse material; e interpela-a: «Trabalhai, não tanto pela comida que se perde, mas pelo alimento que dura até à vida eterna e que o Filho do Homem vos dará.» Por sua vez, a multidão evoca o milagre do maná que Moisés fez no deserto, e desafia-o a fazer um semelhante para acreditarem n’Ele. (Note-se que o relato desse acontecimento constitui o texto da 1ª Leitura: Ex 16,2-4.12-15). Jesus diz que não foi Moisés quem lhes deu esse pão do Céu, mas Deus; e Deus acaba de lhes enviar agora o seu verdadeiro pão, «que desce do Céu para dar a vida ao mundo». A multidão implora: «Senhor, dá-nos sempre desse pão.» E Jesus responde: «Eu sou o pão da vida: quem vem a mim nunca mais terá fome, quem acredita em mim nunca mais terá sede.»

 

A pedagogia catequética deste capítulo 6, chamado “Discurso do Pão da Vida”, é típica de João, que apresenta Jesus a dialogar com os seus interlocutores. Veja-se os casos de Nicodemos (cap. 3), da Samaritana (cap. 4), da pecadora surpreendida em adultério (cap. 8), do cego de nascença (cap. 9), da ressurreição de Lázaro (cap. 11).

 

» No Domingo XIX, 13 de Agosto, o texto do Evangelho (Jo 6,41-51) começa com uma reacção dos judeus igual às dos conterrâneos de Jesus no Domingo XIV, a propósito de Jesus ter dito, no Domingo anterior, que Ele era o verdadeiro Pão descido do Céu. Os judeus murmuravam: Se nós conhecemos a sua família, como é que Ele diz que desceu do Céu?! E, muito ao jeito das catequeses dialogadas em João, Jesus responde, acabando por reafirmar tudo frontalmente: «Eu sou o pão vivo que desceu do Céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que Eu hei-de dar é a minha carne pela vida do mundo.»

 

Entretanto, a 1ª Leitura transmite o famoso episódio de 1 Rs 19,4-8: o profeta Elias, cansado de andar um dia inteiro no deserto, pediu a Deus que lhe tirasse a vida e, deitando-se, adormeceu. Um Anjo do Senhor despertou-o e mandou-lhe comer e beber do pão e da água que lhe trouxera; ele assim fez, mas voltou a adormecer. Mas o Anjo insistiu com ele segunda vez, e «Elias levantou-se, comeu e bebeu. Depois, fortalecido com aquele alimento, caminhou durante quarenta dias e quarenta noites até ao monte de Deus, Horeb.» Ou seja: renovando e personalizando num profeta famoso de Israel o que tinha acontecido séculos antes com todo o povo, o texto vem reforçar as palavras de Jesus, estimulando-nos a comungar o seu corpo e sangue de forma habitual como condição de garantirmos a força necessária para o seguir até ao fim. «Saboreai e vede como o Senhor é bom», exorta-nos o refrão do salmo 34.

 

» A 20 de Agosto, a 1ª Leitura do Domingo XX faz-nos o convite da Sabedoria para o seu banquete: «Vinde comer do meu pão e beber do meu vinho que vos preparei. Deixei a insensatez e vivereis; segui o caminho da prudência» (Pr 9,1-6). E no Evangelho, Jesus: «Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e Eu o ressuscitarei no último dia.» (Jo 6,41-51).

 

» Finalmente, com o último Domingo do mês de Agosto (dia 27, Domingo XXI) conclui a leitura contínua do capítulo 6 de João. E da forma pedagogicamente pretendida pelo Evangelista: após esta longa catequese, com os judeus a replicar e Jesus a triplicar, vem a separação das águas segundo a rejeição ou o acolhimento da Palavra. Escandalizados com a afirmação de Jesus, de que tinham de comer a sua carne e beber o seu sangue, «muitos discípulos afastaram-se e já não andavam com Ele.» De facto, Jesus apenas tinha convidado alguns a segui-lo, não obrigando ninguém a fazê-lo. Por isso, interpela frontalmente os que tinham ficado com Ele, pois não queria seguidismos ambíguos nem interesseiros: “Também vós quereis ir embora?” Respondeu-lhe Simão Pedro: “Para quem havemos de ir, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna. Nós acreditamos e sabemos que Tu és o Santo de Deus.” (Jo 6,60-69).

 

Paralelamente a esta profissão de fé de Pedro em nome dos Apóstolos, a 1ª leitura apresenta-nos Josué, substituto de Moisés para introduzir o povo hebreu na terra prometida, a convocar os responsáveis e o povo numa assembleia em Siquém, desafiando-os a optar de vez pelos deuses pagãos a quem os seus pais tinham servido, ou ao Senhor. Declarando: «Eu e a minha família serviremos o Senhor.» Estimulado pelo seu testemunho, o povo respondeu: «Também nós queremos servir o Senhor, porque Ele é o nosso Deus.» (Jo 6,51-58).

 

A concluir, fica o eco das palavras de Jesus no Evangelho, que terão influído na decisão de Pedro: «As palavras que Eu disse são espírito e vida. Mas, entre vós, há alguns que não acreditam.» Para que a História da Aliança continue, só falta que nós, na Eucaristia deste Domingo, renovemos uma vez mais a nossa fé, actualizada pela evangelização da Palavra de Deus.

frei Lopes Morgado

 

 
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