PAZ e BEM! Bem-vindo à Página dos Frades Missionários Capuchinhos

Página Principal


São Francisco Assis


Espírito de Assis


Porciúncula


Ordem Capuchinhos


Missão em Timor


Onde Vivemos


Espaço Jovem


Música


Apontadores


 
Parábolas de S. Lucas

O fariseu e o cobrador de impostos

 

 

Parábolas de S. Lucas (4)

O fariseu e o cobrador de impostos

(Lc 18,9-14)

 

Frei Herculano Alves

 

Muitas parábolas colocam diante dos nossos olhos dois tipos de personagens opostas. Esta mostra-nos essa oposição no aspecto religioso e político. Vamos caracterizar, primeiramente, os dois intervenientes na parábola.

 

 

O texto da parábola (Lc 18,9-14)

 

9Jesus disse também a seguinte parábola, a respeito de alguns que confiavam muito em si mesmos, tendo-se por justos e desprezando os demais:

 

10«Dois homens subiram ao templo para orar: um era fariseu e o outro, cobrador de impostos.

 

11O fariseu, de pé, fazia interiormente esta oração: “Ó Deus, dou-te graças por não ser como o resto dos homens, que são ladrões, injustos, adúlteros; nem como este cobrador de impostos. 12Jejuo duas vezes por semana e pago o dízimo de tudo quanto possuo.”

 

13O cobrador de impostos, mantendo-se à distância, nem sequer ousava levantar os olhos ao céu; mas batia no peito, dizendo: “Ó Deus, tem piedade de mim, que sou pecador.”

 

14Digo-vos: Este voltou justificado para sua casa, e o outro não. Porque todo aquele que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado.»

 

 

 

 

Dois personagens opostos

 

Há três níveis de contrastes entre os dois personagens: no aspecto religioso, político e social.

 

O fariseu e o publicano. Mosaico bizantino do céc. VI, em Santo Apolinario in Classe, Ravena, Itália.

 

O FARISEU pertencia a um grupo de pessoas muito praticantes, mesmo excessivamente praticantes. É o que ele próprio declara, na parábola: na lista de boas obras que apresenta a Deus, mostra, não apenas as coisas obrigatórias, mas também algumas que estão para além da obrigação, como pagar o dízimo de todas as coisas que possuía: do vinho, do azeite e do trigo. Além disso, jejuava duas vezes por semana – segundas e quintas-feiras  – quando era obrigatório jejuar apenas uma vez, na festa penitencial do Yom kippur. O jejum era sempre muito rigoroso: não se comia nem bebia durante todo o dia. Os fariseus eram fiéis aos 613 preceitos propostos para o perfeito cumprimento da Lei.

 

Diríamos hoje que este era um grupo fundamentalista, no aspecto religioso. Politicamente, no entanto, os fariseus estavam contra o domínio dos romanos na Palestina, e isto por motivos religiosos, e não só: pensavam que os romanos, sendo pagãos, profanavam a Terra Santa, dada por Deus àquele povo. O domínio romano era uma espécie de profanação da Terra de Deus.

 

O COBRADOR DE IMPOSTOS situava-se para além desta fronteira, ou mesmo no campo oposto, tanto no aspecto político como no religioso: neste sentido, o cobrador de impostos, não pertencendo ao grupo dos “santos” e praticantes fariseus, era mesmo considerado um pecador público, pois recolhia os impostos do povo “santo”, para os entregar aos romanos “profanadores” da Terra Santa. Neste sentido, ele era politicamente colaboracionista com “o inimigo” romano.

 

Pior ainda, era considerado ladrão, pois exigia impostos a mais, para os colocar na sua conta pessoal. Os romanos entregavam a cada cobrador um território bem determinado, exigindo-lhes um preço fixo. Mas, para além do imposto fixado, os cobradores exigiam mais, para uso próprio.

 

O facto de ser considerado pecador público granjeou-lhe o nome de publicano, apelido que algumas traduções da Bíblia ainda usam. Ele era anti-fariseu, a nível religioso e político, pois era visto como um colaboracionista com o dominador estrangeiro. Mas também era socialmente diferente do fariseu, pois possuía bens em abundância, enquanto os fariseus pertenciam à classe popular, mais pobre.

 

 

Sentido da parábola

 

A parábola adquire o seu sentido, não nas palavras orgulhosas do fariseu, mas noutro aspecto. De facto, o fariseu diz a verdade a seu respeito, pois era assim que ele vivia a sua relação com Deus, embora noutro lugar Jesus recrimine os fariseus pelo seu orgulho (Lc 16,15). Mas diz a verdade também a respeito do cobrador de impostos que, aos olhos do povo, era mesmo um pecador.

 

O facto de o fariseu rezar de pé não é sinal de orgulho, pois essa era uma atitude normal (Mc 11,25), que o cobrador também adoptou. Por outro lado, quanto ao seu conteúdo, a oração do fariseu é mesmo digna de imitação, pois não faz nenhum pedido, mas dá graças, louvor a Deus pelo bem que faz.

 

Lucas e o próprio Jesus tão-pouco afirmam que o cobrador de impostos não era um pecador. Para fazer uma verdadeira penitência ele teria de renunciar à sua profissão e restituir somas importantes, que tivesse desviado. Basta reparar no que afirma um famoso cobrador de impostos – também do Evangelho de Lucas – Zaqueu:

«Zaqueu, de pé, disse ao Senhor: “Senhor, vou dar metade dos meus bens aos pobres e, se defraudei alguém em qualquer coisa, vou restituir-lhe quatro vezes mais.”» (Lc 19,8).

 

O cobrador de impostos da nossa parábola não manifesta vontade de renunciar à sua profissão nem de restituir dinheiro roubado, como funcionário público desonesto. Apesar de se sentir pecador, sente-se também num beco sem saída, pois perderia, talvez, o único emprego capaz de lhe dar – e à sua família – um certo bem-estar.

 

 

Qual o pecado do fariseu?

 

O pecado do fariseu não está em fazer alarde de qualidades e virtudes que não possui, ou seja, não está na mentira, mas consiste em tirar dessas virtudes motivo de orgulho e de justiça diante de Deus. O fariseu serve-se do pecado do outro para se enaltecer a si próprio diante dele e diante de Deus. Aqui está o seu pecado, o pecado do orgulho.

 

Mas, mais do que o pecado do orgulho, o fariseu comete sobretudo o pecado da justificação de si próprio: ele sente-se justo, santo diante de Deus, devido às suas obras, boas, aliás, e não à misericórdia de Deus. Ele pensa que a sua santidade depende dele próprio e não de Deus.

 

Deste modo, o fariseu torna-se deus de si mesmo e do pecador, na medida em que se eleva a partir do ponto de referência, que é o pecador. Para ser santo, acha que bastam as suas obras. Não precisa de Deus. As suas obras é que são a causa da sua santidade, quando, na verdade, são consequência da mesma. As suas obras são o seu mérito, uma garantia diante de Deus, quando, na verdade não são mais que dom de Deus.

 

Numa palavra, ele pensa que Deus está perfeitamente de acordo com ele e contente com o que ele faz. Dá graças a Deus, não pelo facto de Ele o tornar capaz de fazer tais obras, mas pelo facto de “não ser como este cobrador de impostos”. Esta justificação aparece no seu próprio modo de fazer a oração, que poderíamos traduzir por: “ele escutava-se a orar” ou “ele rezava em si mesmo do modo seguinte…”. Na própria oração, o fariseu escuta-se a si mesmo, fala a si mesmo e não parece dar muita importância a Deus.

 

O pecador acha que não tem nenhum motivo em si próprio que o justifique ou que lhe dê confiança diante de Deus. Tudo o que ele é e o seu futuro estão plenamente nas mãos de Deus. Ou seja, o pecador sente-se vazio de si mesmo, um pobre, no sentido mais profundamente bíblico; e, esta sua pobreza dá-lhe a capacidade para se encher de Deus e do seu perdão. Por isso, a parábola conclui que o fariseu partiu do templo, tal como veio, isto é, cheio de si e vazio de Deus, enquanto o pecador partiu justificado, ou seja, cheio do perdão de Deus.

 

A sua oração – em contraste com a do fariseu – é perfeita, honesta e agradável a Deus: “Ó Deus, tem piedade de mim, que sou pecador”. Este contenta-se em pedir perdão a Deus, porque tem consciência daquilo que é realmente: um pecador.

 

O fariseu, pelo contrário, acha que já não necessita de Deus para nada, porque adquiriu – pelas suas obras – uma justificação total. Para o fariseu, importante é mesmo a sua pessoa, enquanto, para o pecador, Deus tem a importância total e ele sente-se um nada diante dele.

 

 

Ser justo diante de Deus:

a graça de Deus e as nossas obras

 

Tal como noutras parábolas de Lucas (sobretudo as do cap. 15), também aqui o tema fundamental é o da nova justiça trazida por Jesus ao mundo. Este é um tema muito comum a Paulo, sobretudo nas Cartas aos Romanos e aos Gálatas: o pecador salva-se, isto é, torna-se justo diante de Deus, não pelas obras humanas, pelo seu esforço no cumprimento de determinados preceitos, mas pela graça de Deus; ou seja, só pelo poder de Deus é que o homem é salvo, e não pelo que é ou faz. Acolher Jesus e a sua Palavra numa fé confiante, é o único caminho da salvação.

 

Alguém perguntará: Então, as nossas boas obras nada valem diante de Deus? O problema não deve ser colocado desse modo. Aqui não se trata de um problema de conteúdo, isto é, de obras, mas da perspectiva com que se fazem as obras. Expliquemos: O fariseu não foi condenado pelas boas obras que praticou, mas por confiar apenas nelas e nas suas próprias forças para as fazer. Foi condenado por não as atribuir a Deus nem as relacionar com Ele.

 

O fariseu coloca-se diante de Deus numa atitude de senhor e não de servo. Faz negócio com Deus: “Eu dou-te as minhas boas obras e Tu és obrigado a dar-me a salvação eterna.” Toma uma posição de igualdade com Deus, na medida em que se sente com direitos diante de Deus.

 

O pecador, pelo contrário, pensa – e pensa bem – que nada tem para dar em troca a Deus e que não tem quaisquer direitos a reclamar dele. De seu tem apenas o pecado e dele espera apenas o perdão. A parábola não é pois, sobre a oração, mas sobre a justificação diante de Deus e pretende responder à eterna pergunta: “Como fazer a vontade de Deus neste mundo?” Cada um dos personagens apresenta-nos a sua resposta, ou melhor, a sua atitude de vida.

 

 

A parábola e nós

 

Ao apresentar-nos esta parábola com estes dois personagens tão diferentes, Jesus quis dar uma lição aos fariseus, mas sobretudo a nós, que continuamos a escutar a sua Palavra. Talvez não nos fique mal olhar para os dois personagens e ver com qual dos dois nos parecemos na nossa oração. Mais ainda, na nossa maneira de ver o cristianismo.

 

O fariseu colocou-se como ponto de referência em relação ao pecador e ao próprio Deus. Na condição de superioridade em relação ao pecador e na de quase igualdade, perante Deus.

 

O pecador, esse, relaciona-se apenas com Deus e não se mete na vida do vizinho.

 

O cristão deve estar atento para não abrir a porta à tentação da soberba perante o outro homem e da autojustificação perante Deus. Pelo contrário, optará por uma atitude de caridade e grande compreensão em relação com as outras pessoas – como sempre fez Jesus – e por um esvaziamento de si, para que Deus o encha do seu perdão e da sua misericórdia.

 

 

 

PARA REFLECTIR E CELEBRAR

 

1. Abrir a Bíblia do grupo no texto da parábola.

2. Cântico inicial, sobre o arrependimento ou a oração.

3. Leitura e comentário da parábola, a partir deste artigo,

    pelo Animador da celebração.

4. Partilha do grupo sobre o tema.

5. Breve silêncio para interiorizar as ideias da parábola.

6. Oração partilhada.

7. Cântico final.

 

 

 

 

 
Página Principal | Capuchinhos em Portugal | Contactos | Ficha Técnica | Sugestões

© 2007 Ordem dos Frades Menores Capuchinhos (Portugal)