PAZ e BEM! Bem-vindo à Página dos Frades Missionários Capuchinhos

Página Principal


São Francisco Assis


Espírito de Assis


Porciúncula


Ordem Capuchinhos


Missão em Timor


Onde Vivemos


Espaço Jovem


Música


Apontadores


 
Parábolas de S. Lucas

Parábola do homem rico e do pobre Lázaro

 

 

Parábolas de S. Lucas (3)

Parábola do homem rico e do

pobre Lázaro (Lc 16,19-31)

 

Frei Herculano Alves

 

 

Depois das parábolas da misericórdia (Lc 15), Lucas dedica alguns capítulos a assuntos sociais, ou seja, a temas que têm a ver com a pobreza e a riqueza (ver os cap. 16 a 19, mas sobretudo o 16). Vamos analisar uma dessas parábolas,

que parte de uma situação infelizmente muito actual

e é apresentada numa linguagem acutilante

que não nos pode deixar indiferentes.

 

 

 

A Parábola (Lc 16,19-31)

 

19 Havia um homem rico que se vestia de púrpura e linho fino e fazia todos os dias esplêndidos banquetes. 20Um pobre, chamado Lázaro, jazia ao seu portão, coberto de chagas. 21Bem desejava ele saciar-se com o que caía da mesa do rico; mas eram os cães que vinham lamber-lhe as chagas. 22Ora, o pobre morreu e foi levado pelos anjos ao seio de Abraão. Morreu também o rico e foi sepultado.

23Na morada dos mortos, achando-se em tormentos, ergueu os olhos e viu, de longe, Abraão e também Lázaro no seu seio. 24Então, ergueu a voz e disse: ‘Pai Abraão, tem misericórdia de mim e envia Lázaro para molhar em água a ponta de um dedo e refrescar-me a língua, porque estou atormentado nestas chamas.’

25Abraão respondeu-lhe: ‘Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em vida, enquanto Lázaro recebeu somente males. Agora, ele é consolado, enquanto tu és atormentado. 26Além disso, entre nós e vós há um grande abismo, de modo que, se alguém pretendesse passar daqui para junto de vós, não poderia fazê-lo, nem tão-pouco vir daí para junto de nós.’

27O rico insistiu: ‘Peço-te, pai Abraão, que envies Lázaro à casa do meu pai, pois tenho cinco irmãos; 28que os previna, a fim de que não venham também para este lugar de tormento.’

29Disse-lhe Abraão: ‘Têm Moisés e os Profetas; que os oiçam!’ 30Replicou-lhe ele: ‘Não, pai Abraão; se algum dos mortos for ter com eles, hão-de arrepender-se.’ 31Abraão respondeu-lhe: ‘Se não dão ouvidos a Moisés e aos Profetas, tão-pouco se deixarão convencer, se alguém ressuscitar dentre os mortos.’

 

 

LUCAS tem uma apetência especial para estas questões, manifestando uma sensibilidade particular em relação aos pobres. De facto, no seu tempo – como no tempo de Jesus – multidões de pessoas pobres, escravos fugidos e outros sem eira nem beira vagueavam, andrajosos, pelo Império Romano à procura de qualquer coisa para comer. Lucas fala, pois, de pobres reais, e não da pobreza apenas de coração – os pobres em espírito, como acontece com Mateus (Mt 5,3).

 

A parábola apresenta um violento contraste entre um homem muito rico e outro muito pobre, chamado Lázaro. Nela, o evangelista dá-nos uma autêntica explicação do seu texto das Bem-aventuranças, onde já aparece tal contraste.

 

 

Bem-aventuranças e mal-aventuranças da riqueza

 

No seu Evangelho, Lucas faz-nos ouvir da boca de Jesus tanto as Bem-aventuranças como as mal-aventuranças. Por um lado, ouvimos: Felizes vós, os pobres…; mas, por outro: Ai de vós, os ricos.

 

Felizes vós, os pobres,

porque vosso é o Reino de Deus.

Felizes vós, os que agora tendes fome,

porque sereis saciados.

Felizes vós, os que agora chorais,

porque haveis de rir.

Felizes sereis, quando os homens vos odiarem,

quando vos expulsarem, vos insultarem

e rejeitarem o vosso nome como infame,

por causa do Filho do Homem.

Alegrai-vos e exultai nesse dia,

pois a vossa recompensa será grande no Céu.

Era precisamente assim que os pais deles tratavam os profetas.

 

Mas ai de vós, os ricos,

porque recebestes a vossa consolação!

Ai de vós, os que estais agora fartos,

porque haveis de ter fome!

Ai de vós, os que agora rides,

porque gemereis e chorareis!

Ai de vós, quando todos disserem bem de vós!

Era precisamente assim que os pais deles tratavam os falsos profetas. (Lc 6,21-26)

 

 

Um homem muito rico

 

A parábola tem duas cenas fundamentais: uma terrestre (v.19-20) e outra celeste (v.22-29). Como é fácil de perceber, a riqueza sempre teve determinadas manifestações exteriores. Lucas apresenta-nos três: no modo de vestir, no modo de comer e na casa em que se habita. De facto, o rico vestia-se de púrpura e linho fino e fazia todos os dias esplêndidos banquetes (v.19).

 

A roupa do rico – púrpura e linho fino – era a melhor que havia na altura, a que usavam os reis e os grandes senhores. Este tipo de vestes é muito comum no Antigo Testamento e na literatura judaica do tempo de Jesus e está relacionada com o poder.

 

A sua comida diária era a que se servia nos grandes banquetes e festas. Ou seja, o rico vivia sempre numa situação de poder e de festa. Estas duas manifestações de riqueza são complementadas por uma outra: a da casa, que não é uma casa qualquer, mas tem um “portão”, junto do qual jazia Lázaro (v.20). Numa palavra, o rico qualifica-se pelo luxo, pela abundância e pelo poder. Por outro lado, o rico não tem um nome próprio, que o caracterize, pois ele representa uma classe de exploradores da época de Jesus e de Lucas, responsáveis pelas injustiças e misérias em relação a milhões de pessoas, a quem foi pregado o Evangelho.

 

 

Um homem muito pobre

 

O contraste da posição de Lázaro com a do homem rico é flagrante: Lázaro caracteriza-se pela miséria e pela falta de tudo. Em primeiro lugar, não tem uma casa, um poiso que possa dizer seu; a sua casa é a rua, vive na rua, com os cães da rua, pois jazia ao portão do rico. O facto de Lucas dizer que ele jazia, mostra bem a sua fraqueza; pois – em contraste com o poder do rico – nem sequer podia manter-se de pé. O verbo jazia (em grego ebéblêto) indica que Lázaro era colocado por alguém ao portão do rico, como se esse fosse o seu lugar habitual, a sua posição social, o seu estatuto. Ele era, por assim dizer, “o que está deitado ao portão”.

 

A fraqueza de Lázaro era devida, não só à falta de comida, mas também às doenças, pois Lázaro vivia caído na poeira do caminho, coberto de chagas. Estas chagas contrastam com a púrpura e o linho fino do rico e são as únicas vestes referidas para cobrir o corpo de Lázaro.

 

A pobreza e a miséria de Lázaro são ainda acentuadas pelas suas companhias: os cães da rua são os seus companheiros do dia a dia e os “enfermeiros” que lhe lambem as chagas.

 

Mas há mais: em contraste com “os esplêndidos banquetes” do rico, Lázaro nada tinha que meter à boca. Os seus “banquetes” são como os dos cães da rua, que deveriam comer alguns restos que os vizinhos lhes deitavam pelas janelas. Lázaro, menos expedito que os cães, não tinha certamente acesso a essas “guloseimas”. Por isso, a sua “fome de cão” é agravada pelo facto de ele desejar saciar-se com o que caía da mesa do rico, ou seja, com a comida dos cães do rico (v.21); de facto, os cães comiam os restos que lhes deitavam abaixo da mesa, mas ele nem isso podia comer (ver Lc 15,16).

 

Esta diferença de alimentação dos dois principais personagens da parábola dá-nos uma ideia da miséria em que vivia grande parte da população do tempo de Jesus, devido às desigualdades criadas pelos poderosos.

 

Tudo isto manifesta uma injustiça gritante: Lázaro, um ser humano, com direitos e deveres e com um nome próprio, vive numa condição social desumana, abaixo de cão de rico.

 

O rico tem tudo; Lázaro não tem nada. A única coisa que possui é um nome próprio; um nome que lhe dá dignidade humana, uma dignidade que não é reconhecida pelo rico, mas apenas por Deus. Talvez por isso foi chamado Lázaro, o mesmo que Eleázar, isto é, Deus ajuda. É neste contexto que entendemos bem as mal-aventuranças de Jesus acima mencionadas: Ai de vós, os ricos…

 

 

Depois da morte…

 

Ao contrário do rico, Deus reconhece o valor e a importância do pobre; por isso, depois da morte de ambos, Lázaro entra no seio de Abraão, ou seja, é glorificado no céu, onde nada lhe falta, enquanto o rico é lançado no escuro cheol (lugar dos mortos), onde nada tem.

 

Aquele a quem nada faltou, durante a vida deste mundo, sente agora a falta de tudo; enquanto aquele que nada tinha na vida sobre a terra tem agora toda a felicidade.

 

Agora faz-se justiça. Por isso, o rico suspira, pedindo a Abraão que Lázaro lhe dê umas gotas de água, para minimizar a sua sede. No Judaísmo tardio, havia a ideia de que os justos e os condenados se viam e comunicavam entre si. Assim como Lázaro, na sua prostração ao portão do rico, olhava para as janelas da sua casa, esperando umas migalhas de pão, agora é o rico que olha para o alto, para o “seio de Abraão”, e pede a Lázaro umas gotas de água:

 

“Pai Abraão, tem misericórdia de mim e envia Lázaro para molhar em água a ponta de um dedo e refrescar-me a língua, porque estou atormentado nestas chamas.” Abraão respondeu-lhe: “Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em vida, enquanto Lázaro recebeu somente males. Agora, ele é consolado, enquanto tu és atormentado.

 

O facto de colocar a cena dos dois personagens depois da morte, ou seja, do lado de Deus, significa: Deus tem uma palavra a dizer sobre a justiça e a injustiça dos

ricos neste mundo.

 

Toda a injustiça cometida contra o pobre é uma ofensa ao próprio Deus (Mt 25,34-46). A justiça de Deus segue parâmetros diferentes da justiça humana, mas realiza-se plenamente, mesmo para além da morte, e não pode ser revogada.

 

 

O rico, advogado dos ricos

 

O homem muito rico confessa que foi injusto, não partilhou os seus bens com o pobre Lázaro que jazia ao seu portão. Confessa que não foi obediente à Lei de Deus, à lei da solidariedade, do amor. No entanto, torna-se advogado dos ricos que ainda estão vivos, pedindo a Abraão que envie Lázaro, ressuscitado, para advertir os seus “cinco irmãos” a não procederem como ele.

 

Os “cinco irmãos” representam aqueles que ouviram a parábola da boca de Jesus e os que continuam a ouvi-la ainda hoje.

 

Como resposta ao pedido do rico, Abraão lembra-lhe que a Escritura Sagrada já os advertiu e continua a advertir a serem justos para com o seu próximo. Se não se convertem à justiça é porque não querem. A vinda de Lázaro do mundo do Além à terra não teria a força e a convicção que vêm das Escrituras: Se não dão ouvidos a Moisés e aos Profetas, tão-pouco se deixarão convencer, se alguém ressuscitar de entre os mortos.

 

A ressurreição de um outro Lázaro ainda endureceu mais o coração dos judeus em relação a Jesus. Estes procuravam, por isso mesmo, a sua morte (Jo 11,45-57).

 

 

A parábola e nós

 

A parábola do homem muito rico é, pois, uma parábola sobre a justiça social, isto é, sobre o amor aos pobres; ou seja, Deus quis servir-se de nós para manifestar o seu amor àqueles que ninguém ama, porque não podem retribuir. Deus ama igualmente o pobre e o rico, mas o pobre é frequentemente colocado na margem do caminho da nossa sociedade consumista.

 

A parábola move-nos a sermos os intermediários do amor de Deus para com os marginalizados de hoje. Por esta parábola, ficamos a saber que agradar a Deus é, em primeiro lugar, amar aquele que Deus ama com especial carinho – o pobre.

 

Portanto, o caminho que conduz mais directamente a Deus é o caminho do amor fraterno. Só assim chegaremos a ser verdadeiros filhos de Abraão. Nem a pobreza nem a riqueza são bens ou males absolutos. O grande valor é o amor, a solidariedade para com o pobre.

 

Lucas compraz-se em apresentar Abraão como modelo para o povo judeu (Lc 1,72-73; 3,7-11.34; 13,16.28-29; 19,9; 20,37); aqui, apresenta-o como seu porta-voz. Daqui se conclui também que as riquezas não são o bem mais apreciado aos olhos de Deus e não o devem ser para os homens.

 

O homem muito rico da parábola não é um simples condenado ao inferno, mas um homem mundano que viveu apenas para os valores materiais, como a generalidade dos homens e mulheres do nosso tempo.

 

É uma figura característica do homem para quem Deus e os valores do Evangelho não são uma preocupação importante ou nem sequer existem. É um desses de que fala também o livro da Sabedoria, em 2,6-9:

 

Vinde, pois! Gozemos dos bens presentes,

tiremos prazer das criaturas com o ardor da nossa juventude!

Inebriemo-nos do melhor vinho e de perfumes,

e não deixemos passar as primeiras flores da Primavera!

Coroemo-nos de botões de rosas, antes que murchem!

Nenhum de nós falte às nossas orgias;

deixemos em toda a parte sinais da nossa alegria,

pois esta é a nossa parte e a nossa herança.

 

 

 

PARA REFLECTIR E CELEBRAR

 

1. O grupo reúne-se para a leitura e estudo da parábola, a partir das seguintes questões:

– Qual é a personagem principal do texto e porquê?

– Será pecado ser rico? Que riqueza se condena na parábola?

– Porque é que Abraão – como tinha feito Jesus (Lc 11,29-32) – recusa fazer milagres?

– A riqueza será sinal da bênção de Deus, e a pobreza será uma maldição?

– Recolher no Evangelho de Lucas outros textos que realcem o tema da pobreza-riqueza.

 

2. Oração partilhada a partir dos seguintes temas: Agradecimento pelos dons, “riquezas” recebidas de Deus; pedido de perdão por todas as injustiças sociais cometidas contra os mais pobres ao longo da História e no nosso tempo.

 

3. Compromisso e cântico final.

 

 

 

 

 

 
Página Principal | Capuchinhos em Portugal | Contactos | Ficha Técnica | Sugestões

© 2007 Ordem dos Frades Menores Capuchinhos (Portugal)